EUA permitem a loucura da violência armada, diz especialista
O massacre de quinta-feira numa faculdade na cidade de Roseburg, no Estado norte-americano do Oregon, voltou a trazer à tona o debate sobre a necessidade de controle de armas nos Estados Unidos, com declarações veementes do presidente Barack Obama em defesa de uma mudança nas leis.
Por Redação, com DW - de Washington, EUA:
O massacre de quinta-feira numa faculdade na cidade de Roseburg, no Estado norte-americano do Oregon, voltou a trazer à tona o debate sobre a necessidade de controle de armas nos Estados Unidos, com declarações veementes do presidente Barack Obama em defesa de uma mudança nas leis.
O ataque aconteceu numa faculdade comunitária, frequentada por cerca de 13 mil estudantes. O atirador, inicialmente descrito como um homem de 26 anos, invadiu uma sala de aula e abriu fogo, matando nove pessoas e ferindo outras sete, antes de ser morto pela polícia.
Pela 15ª vez, Obama se viu forçado a se pronunciar sobre tragédia como a que matou nove em faculdade do Oregon
A imprensa norte-americana o identificou como Chris Harper M., nascido no Reino Unido e radicado nos EUA desde criança. Segundo testemunhas, da porta da sala de aula, ele pedia que os alunos se levantassem e dissessem sua religião. Os que se diziam cristãos eram executados.
Segundo a rede CNN, o atirador estava vestido com um colete a prova de balas e levava consigo três pistolas e um fuzil AR15. Vizinhos dele na cidade de Winchester contam que todos os dias ele usava a mesma roupa, coturno, calças verdes camufladas e uma camisa branca, e era bastante recluso.
Obama: "Isso se tornou rotina"
Os assassinatos coletivos têm alimentado as demandas por um controle maior sobre armas, que é protegido pela segunda emenda à Constituição e já é tema da corrida presidencial à Casa Branca. Obama conclamou a população a eleger políticos que desafiem a indústria armamentista do país, a qual exerce grande influência na política norte-americana.
Em seu sétimo ano com presidente, esta foi a 15ª vez que Obama se pronunciou após episódios semelhantes ocorridos em cinemas, bases militares , em uma igreja e até durante uma transmissão ao vivo de televisão .
– De algum modo, isso se tornou rotina – afirmou o presidente. "Esse tipo de notícia é rotina, minha resposta aqui nesse pódio acaba sendo rotina. Nos tornamos insensíveis a isso."
Obama fez severas críticas ao lobby da indústria de armas e aos legisladores que a apoiam. "Posso imaginar agora comunicados de imprensa sendo preparados. 'Precisamos de mais armas', vão dizer. 'Menos regulamentações de segurança'. Alguém realmente acredita nisso?", indagou.
Segundo ele, a maioria dos proprietários de armas dos EUA apoia regras de segurança mais rígidas para as armas de fogo.
– Há, aproximadamente, uma arma para cada homem, mulher e criança nos Estados Unidos. Então como pode alguém argumentar, de cara limpa, que mais armas nos deixarão mais seguros? – questionou.
O pré-candidato republicano à presidência Mike Huckabee, um dos ferrenhos defensores do direito ao porte de armas nos EUA, afirmou que Obama tenta explorar a tragédia para fazer avançar sua "agenda antiarmas". Segundo ele, o "pronunciamento político" de Obama é "na melhor das hipóteses, prematuro e na pior, ignorantemente inflamatório".
Em um evento de campanha, a pré-candidata democrata Hillary Clinton afirmou que não consegue entender por que "esses massacres estão acontecendo, vez após vez", e disse que os EUA precisam de "vontade política para fazer todo o possível para manter as pessoas seguras".
– Sei que há um meio de estabelecer medidas sensíveis de controle de armas que ajudem a prevenir a violência, evitando que as armas cheguem às mãos erradas e salvando vidas – afirmou Hillary.
294 incidentes em 274 dias
O ataque inflamou as exigências por um maior controle sobre as armas no país. Entretanto, a Associação Nacional de Rifles (NRA, na sigla em inglês), o maior lobby armamentista dos EUA, defende a presença de guardas armados para prevenir tiroteios como o que matou 26 pessoas, das quais 20 crianças, em uma escola primária em Newtown (Connecticut) e 32 na universidade Virginia Tech, em 2007.
Após o massacre de Newtown, as doações públicas à NRA, que combate as restrições ao uso de armas em todo o país, aumentaram 11%.
Segundo as estatísticas, nos 274 dias do ano até agora, já houve 294 incidentes em que quatro ou mais pessoas morreram por armas de fogo.
Violência armada
Jonathan Metzl, especialista em violência armada e saúde mental, diz que lobby da indústria armamentista impede mudança na legislação. Segundo ele, é a vontade do povo contra a vontade de corporações poderosas.
Segundo dados da ONG Everytown for Gun Safety, que promove a segurança contra o uso de armas de fogo, desde o massacre de Newtown, que deixou 20 mortos em dezembro de 2012, foram registrados ao menos 141 tiroteios em escolas norte-americanas. Isso corresponde a quase um tiroteio por semana em alguma escola do país.
Em entrevista à agência alemã de notícias Deutsche Welle (DW), Jonathan Metzl, especialista em violência armada e saúde mental da Universidade Vanderbilt, no Tennessee, diz que existem muitos lobbies poderosos e interesses financeiros que fazem tudo para que a legislação de armas de fogo não seja endurecida nos EUA.
– É a vontade do povo contra a vontade de alguns lobbies e corporações muito poderosas, afirma o psiquiatra. "Os norte-americanos estão permitindo a praga, a insanidade da violência armada massificada."
– Tiroteios em escolas e universidades estão ficando mais comuns nos EUA?– Tiroteios em escolas estão se tornando cada vez mais frequentes e cada vez mais horríveis. Se alguém estiver determinado, é praticamente impossível impedi-lo de fazer isso, porque temos diferentes leis sobre armas de fogo em cada estado, mesmo no que diz respeito à presença de armas de fogo em escolas. Em minha opinião, precisamos de um referendo nacional sobre a questão.
Esses tiroteios servem de modelo para outros massacres. Para chamar a atenção nacional, é preciso superar o último aluno (atirador). Vimos isso em Newtown. Com todos esses tiroteios em escolas, é preciso criar realmente uma grande confusão para que o nome do agressor fique conhecido.
No geral, as escolas e particularmente as faculdades onde hoje ocorrem os tiroteios estão entre os lugares mais seguros dos EUA. E tais lugares são também os mais seguros para jovens em idade universitária, que formam, como sabemos, a faixa etária mais propensa a atirar em outras pessoas ou a levar tiros.
A probabilidade de que alguém seja atingido por um tiro num campus universitário é inferior a 1% para cada 100 mil pessoas. Entre o público em geral, essa cifra gira em torno de 6% a 7% para cada 100 mil. O que observamos com frequência em campi universitários é que o estabelecimento de zonas livres de armas é altamente eficaz na proteção contra a violência armada. Campi universitários são lugares particularmente seguros.
– Como estes tiroteios continuam a acontecer em espaços supostamente seguros?
– Campi universitários refletem cada vez mais a sociedade. Como existem mais armas e mais tiroteios, mais pessoas descontentes recorrem às armas como forma de resolver uma série de problemas. As armas se tornam o instrumento de resolução de conflitos. Tudo, desde problemas interpessoais, descontentamento com notas escolares ou com alguns aspectos sociais da faculdade.
Vimos um docente atirar em outro docente numa faculdade no Mississippi, há algumas semanas. Parte desse problema se deve ao fato de haver mais armas disponíveis ao redor.
– Depois do massacre de Newtown, houve um estímulo para que se introduzisse uma legislação de controle de armas mais acirrada em nível nacional. Esses esforços falharam. O massacre no Oregon pode levar à implementação de um controle mais forte de armas?
– As pessoas estão cada vez mais horrorizadas com o que está acontecendo por aqui. Não se trata de um grande mistério. Tiroteios em massa são difíceis de prever ou conter, mas, com eles acontecendo quase diariamente, pode-se ter uma ideia de como acabar com isso.
Queremos controles de antecedentes criminais. Queremos que sejam rastreadas pessoas com histórico de violência e outros fatores. Deve haver um sistema de avaliação como aquele que se faz para tirar a carteira de habilitação. Talvez isso não teria evitado o último tiroteio, mas vai pôr um fim à violência e aos massacres cotidianos. Nos EUA, anualmente, 32 mil pessoas morrem vítimas da violência armada.
Existem muitos lobbies poderosos e interesses financeiros que fazem tudo para que isso não aconteça. É a vontade do povo contra a vontade de alguns lobbies e corporações muito poderosas.
– Após o tiroteio no Oregon, o presidente Obama disse que, permitir que massacres assim aconteçam é uma escolha política. Isso é verdade?
– Os norte-americanos estão permitindo a praga, a insanidade da violência armada massificada ao facilitar que qualquer pessoa possa conseguir uma arma. Isso é absolutamente verdade. Os estados com leis sensatas de armas de fogo são muito eficazes em conter os tiroteios diários e é isso é o que temos de fazer.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.