Estagiária se recusa a alisar cabelo e é hostilizada no trabalho

2/12/2011 18:36,  Por Radio Agência ANP

A estagiária Ester Elisa da Silva Cesário acusa seus superiores de perseguição e racismo. Conforme Boletim de Ocorrência registrado no dia 24 de novembro, na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) de São Paulo, ela teria sido forçada a alisar o cabelo para manter a “boa aparência”. A diretora do Colégio Internacional Anhembi Morumbi ainda teria prometido comprar camisas mais compridas para que a funcionária escondesse os quadris.

Ester conta que foi contratada no dia 1º de novembro de 2011, para atuar no setor de marketing e monitorar visitas de pais interessados em matricular seus filhos no colégio, localizado no bairro do Brooklin, na cidade de São Paulo. A estagiária afirma ter sido convocada para uma conversa na sala da diretora, identificada como professora Dea de Oliveira. Nos dias anteriores, sempre alguém mandava recado para que prendesse o cabelo e evitasse circular pelos corredores.

“Ela disse: ‘como você pode representar o colégio com esse cabelo crespo? O padrão daqui é cabelo liso’. Então, ela começou a falar que o cabelo dela era ruim, igual o meu, que era armado, igual o meu, e ela teve que alisar para manter o padrão da escola.”

Além das advertências, Ester afirma ter sofrido ameaças depois de revelar o conteúdo da conversa aos demais funcionários do colégio. Eles teriam demonstrado solidariedade ao perceber que a estagiaria estava em prantos no banheiro.

“Depois disso, eu me vesti para ir embora e, quando estava saindo, ela me parou na porta e disse: ‘cuidado com o que você fala por aí porque eu tenho vinte anos aqui no colégio e você está começando agora. A vida é muito difícil, você ainda vai ouvir muitas coisas ruins e vai ter que aguentar’.”

Colégio se defende

Após contato da reportagem, um funcionário indicado pela Direção do Anhembi Morumbi informou que a instituição não recebeu nenhuma notificação sobre o registro do Boletim de Ocorrência. Ele negou a existência de preconceito e se limitou a dizer que “o colégio zela pela sua imagem e, ao pregar a ‘boa aparência’, se refere ao uso de uniformes e cabelo preso”.

A advogada trabalhista Carmen Dora de Freitas Ferreira, que ministra cursos no Geledés – Instituto da Mulher Negra – assegura que a expressão “boa aparência” é usada frequentemente para disfarçar preconceitos.

“Não está escrito isso, mas quando eles dizem ‘boa aparência’, automaticamente estão excluindo negros, afrodescendentes e indígenas. O padrão é mulher loira, alta, magra, olhos claros. É isso que querem dizer com ‘boa aparência’. E excluir do mercado de trabalho por esse requisito é muito doloroso, afronta a Lei, afronta a Constituição e afronta os direitos humanos.”

Métodos conhecidos

De acordo com o depoimento da estagiária, as ofensas se deram em um local reservado. A advogada explica que essa prática é comum no ambiente de trabalho, além de ser sempre premeditada.

“O assediador sempre espera o momento em que a vítima está sozinha para não deixar testemunhas, mas as marcas são profundas. O preconceito é tão danoso, que ele nega direitos fundamentais, exclui, coloca estigmas, e a pessoa se sente humilhada, violentada. Quando o assediador percebe a extensão do dano, ele tenta minimizar, dizendo ‘não foi bem assim, você me interpretou errado, eu não sou discriminador, na minha família, a minha avó era negra’.”

Ester ainda afirma que teria sido pressionada a deixar o trabalho, ao relatar o ocorrido a uma conselheira do Colégio. Como decidiu permanecer, passou a ser vigiada constantemente por colegas.

“Eu estou lá e consegui passar numa entrevista porque sou qualificada para o cargo, mas ela não viu isso. Ela quis me afrontar e conseguiu abalar as minhas estruturas emocionais a ponto de eu me sentir um lixo e ficar dois dias trancada dentro de casa sem comer e sem beber. Você pensa em suicídio, se vê feia, se sente um monstro.”

Sequelas e legislação

Ester revela que as situações vividas no trabalho mexeram com sua auto-estima e também provocaram grande impacto nos estudos e no convívio social.

“Desde que isso aconteceu, eu não consigo mais soltar o cabelo. Quando estou na presença dela eu me sinto inferior, fico com vergonha, constrangida, de cabeça baixa. É a única reação que eu tenho pela afronta e falta de respeito em relação a mim e à minha cor.”

O Boletim de Ocorrência foi registrado como prática de “preconceito de raça ou de cor”. A Lei Estadual nº 14.187/10 prevê punição a “todo ato discriminatório por motivo de raça ou cor praticado no Estado por qualquer pessoa, jurídica ou física”. Se comprovado o crime, os infratores estarão sujeitos a multas e à cassação da licença estadual para funcionamento.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

02/12/11


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8 Comentários para “Estagiária se recusa a alisar cabelo e é hostilizada no trabalho”

  1. Maria Cristina Lélis da Silva

    Porque não contrataram logo uma loira…?Quando ela foi entrevistada não viram como ela se apresentou…Para criar situações de ofensa…Que mundo é este que estamos vivendo, que temos que ter padrão de estética e não temos padrão de ética…?Ah tristes preconceitos, se isto for real justiça para eles…

  2. Mario Marcelino

    É muito difícil, harmonizar os preconceitos no Brasil.Os usos e costumes de nosso povo, vem de uma época remota, herdada da coroa portuguesa.Eles foram os precursores no tráfico de afro-descendentes, e descriminação social.

  3. Anão

    aeHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

  4. Mariana

    ahhh… eu já estudei nesse “instituição” e sofri bastante aos 11 anos de idade.
    quando li na reportagem o local de trabalho da moça, pensei “mas tinha que ser!”
    enfim, lamentável uma instituição de ENSINO agir desta forma.
    eu não era “padrão” e vivi o pior ano da minha vida, mas está explicado… a escrotice do lugar vem de cima, esperar o que do restante? falta de vergonha na cara e impunidade pra esse tipo de coisa, por isso agem assim.

    LAMENTÁVEL e eu espero que esse lugar seja punido e os direitos da funcionária, como cidadã e como ser humano sejam atendidos.

  5. Maria

    Nossa, como o site de um jornal publica uma matéria com um erro de português escabroso??

    “…camisas mais cumpridas…” A camisa disse “Olá” à calça??

    O racismo é uma vergonha no Brasil, mas o analfabetismo, semi, e funcional também o são!

  6. Lucas El-Osta

    Gostaria de avisar, que esse não é o primeiro e com certeza não sera o ultimo caso nessa instituição, caso nada seja feito. Eu estudei lá por um ano, tem mais o menos uns 3 anos. E pelo simples fato de ser homossexual, sofri bullying pelos alunos e funcionarios do colegio. Foi o pior ano da minha vida, que me resultou em muita terapia, pq me tratavam como se eu fosse doente. Muitas vezes era questionado por professores por que eu tinha escolhido ser gay. E a Deia, em outubro, so faltou me expulsar da escola, inventando mentiras para os meus pais, falando que eu usava roupas rosa, levava boneca para escola, e que eu deveria procurar ajuda medica, pois deveria estar com desvio de conduta. Foi horrivel. Ela fez de tudo para meus pais me tirar do colégio, falando que se eu continuasse lá, ela nao teria como conter uma possivel agressao pelos alunos (coisa que já ate tinha acontecido, e eles ignoraram). A sociedade precisa ter noção de como o CAM é, e que as devidas medidas legais sejam tomadas para evitar novas vitimas.

  7. anonimo

    Oque está escrito aí é apenas sensacionalismo barato. A estagiária não quis prender o cabelo… Ela poderia ser de qualquer etnia! A norma é que os funcionários prendam os cabelos para limpar as salas. Você gosta de entrar numa sala com fios de cabelo nas carteiras e no chão?

  8. Anonimo2

    PIOR DO QUE ESSA MATÉRIA TOSCA SÃO ALGUNS COMENTÁRIOS RIDÍCULOS E PATÉTICOS. GENTE QUE NUNCA ESTUDOU NO COLÉGIO!

    “Ela fez de tudo para meus pais me tirar do colégio”

    CERTAMENTE A PONTUAÇÃO GROSSEIRA E OS ERROS QUASE INFANTIS NÃO FORAM PRODUTO DO C.A.M

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