Rio de Janeiro, 04 de Setembro de 2026

Esquerda vence na Espanha e inicia revolução política

O conservador Partido Popular (PP) perde 2,5 milhões de votos em 10 comunidades autónomas, na sua maioria detidas desde 1995. Irrupção do Podemos e das candidaturas de unidade popular garantem vitória à esquerda.

Terça, 26 de Maio de 2015 às 09:45, por: CdB
espanha.jpg
O desafio, a partir de agora, é a formação de governos progressistas com a participação de várias formações políticas
O conservador Partido Popular (PP) perde 2,5 milhões de votos em 10 comunidades autónomas, na sua maioria detidas desde 1995. Irrupção do Podemos e das candidaturas de unidade popular garantem vitória à esquerda, que poderá vir a governar Madri e Barcelona.
O panorama político territorial espanhol conhecido até aos dias de hoje ficou tremendamente abalado depois dos resultados eleitorais do último domingo. O veredito saído das urnas, com uma participação eleitoral ligeiramente inferior às de 2011, ofereceu resultados totalmente imprevisíveis há um ano atrás, nas vésperas das eleições para o Parlamento Europeu. A espetacular viragem eleitoral em cidades como Madri e Barcelona, que poderão vir a ser governados por movimentos políticos catalogados de anti-sistémicos, são uma fiel imagem da Espanha que amanheceu na segunda-feira, após o terramoto político de domingo. As listas Agora Madri e Barcelona em Comum, ambas com protagonistas do Podemos e movimentos sociais alternativos, foram a tradução eleitoral do movimento dos indignados do 15-M nascido na praça madrilena Puerta del Sol na primavera de 2011. Mas um dos fatos mais sublinhados desta enorme mudança eleitoral é a perda de poder do PP. O choque foi tão evidente, que na sede nacional do PP, na madrilena rua de Génova, não foi instalado o tradicional balcão tão amado pelos dirigentes do PP nas noites eleitorais triunfantes. Esta não foi de todo uma noite triunfante para os conservadores espanhóis de Mariano Rajoy. O azul homogéneo, a cor de sempre dos populares, em câmaras e comunidades autónomas em todo o território do Estado ficou diluído, muito diluído. Quase 2,5 milhões de votos a menos do que há quatro anos. Concretamente,2.443.804 com 99,47% dos votos contados. O bipartidismo resiste, mas muito debilitado. Mais debilitado do que nunca. Nas urnas municipais o PP e o PSOE mal superaram os 50% dos votos; algo inaudito em eleições anteriores. E enquanto o PP perde poder, o PSOE recupera governos, mas com necessidade de apoio de terceiros e sempre com a obrigação de atingir pactos tripartidos e sempre complexos; em alguns casos como parceiro minoritário. Dúvidas existissem, estas eleições confirmam a irrupção do Podemos e das suas listas municipais em coligação com movimentos sociais por toda a Espanha. O sucesso foi de tal calibre que esta formação política, que renunciou ao uso do nome do partido em candidaturas autárquicas por temer intrusos fora do seu controlo, pode vir a ficar com as presidências das câmaras de Madrid e Barcelona, respetivamente Manuela Carmena e Ada Colau. O mesmo pode vir a suceder-se em Saragoça e Cádis, entre outras cidades. Outra conjunto político, o Compromís, até este momento com um peso minoritário inclusive no seu território, a Comunidade de Valência, pode vir colocar o seu cabeça de lista, Joan Ribó, no cadeirão que ocupou durante 25 anos a conservadora Rita Barberá. Para além disso, estas candidaturas progressistas podem vir a dar maioria aos socialistas em cidades como Sevilha e Córdoba ou feudos tradicionais do PP como Alicante ou Valhadolid, entre outros. Porém, o PSOE não foi a segunda força política em cidades como Madrid, Barcelona, Valência e Saragoça, um dado a reter sobre o futuro dos social-democratas espanhóis. O outro fenómeno eleitoral desta jornada são os Ciudadanos, um partido que até ao momento não tinha saído do seu reduto, a Catalunha, onde está presente há duas legislaturas como pequeno partido. Desta vez, recebeu mais de um milhão de votos com apenas 1000 candidaturas, em Espanha existem 8122 câmaras municipais e passou de emergente a consolidada força no panorama político espanhol. E, não menos importante, em várias sítios converteram-se numa peça chave para aguentar um PP debilitado no poder. A noite eleitoral traz consigo outras consequências. A primeira delas é a implosão da UpyD, que desaparece de todas as instituições, tanto câmaras como comunidades autónomas onde tinha representação. Passou, em pouco mais de quatro anos, de emergente a politicamente irrelevante. Outra consequência, dolorosa à esquerda, são os frágeis resultados da Esquerda Unida, que fica muito marginalizada onde conseguiu eleger representantes, essencialmente em algumas autarquias de média dimensão. Se a revolução no terreno municipal foi grande, nas comunidades autónomas foi descomunal. O PP perdeu todas as maiorias absolutas nas 10 comunidades que governava, na sua maioria desde 1995. Isso traduzir-se-á, salvo surpresas de última hora, à perda de pelo menos 8 governos autonómicos. Se a perda do poder municipal afeta as estruturas de base do PP, com repercussões incontornáveis na sua estrutura orgânica, a saída dos governos autonómicos afeta o músculo político dos conservadores e a sua capacidade em controlar orçamentos públicos de grande dimensão. Por exemplo, a Comunidade Valenciana, dispõe de um orçamento de quase 16 milhões de euros só para este ano. O desafio, a partir de agora, é a formação de governos progressistas com a participação de várias formações políticas, duas, três e inclusive quatro. Uma dinâmica que, salvo excepções, não tem grande tradição em Espanha. As câmaras têm data fixa para tomar posse, no dia 13 de junho. As comunidades autónomas, regidas por práticas parlamentares mais complexas, têm prazos mais relaxados. Mas em meados de julho, no máximo, será plasmada nos diários oficiais a nova realidade política territorial espanhola. Uma situação que não tem precedentes. E no horizonte não muito longínquo as eleições gerais. Um palco apaixonante.

Tags:
Edições digital e impressa