Em Um Olhar do Paraíso, Jackson exagera nos efeitos
19/2/2010 6:50, Redação, com Reuters
Aos 14 anos, Susie Salmon foi estuprada, assassinada e estripada, mas não morreu completamente. Algo estranho aconteceu com ela. De onde está — não é o paraíso, mas também não é o inferno, e não parece ser o purgatório — ela pode observar sua família e seu assassino e torcer para que ele seja preso. Ainda assim, Um Olhar do Paraíso, que estreia em todo o país, não é um filme sobrenatural. É um drama sobre crime e castigo.
O filme tem tudo para ser hipnótico, perturbador até, mas nas mãos do diretor e corroteirista Peter Jackson (famoso pela trilogia O Senhor dos Aneis), a adaptação do romance Uma Vida Interrompida é morna, sem graça e cheia de efeitos visuais. A trama é interessante, mas os excessos criativos do diretor a transformam num emaranhado de clichês visuais, um filme no qual uma onipresente narração em off contradiz uma regra básica do cinema: mostrar ao invés de dizer.
O roteiro, que Jackson assina com Fran Walsh e Phillippa Boyens (suas parceiras na adaptação do texto de O Senhor dos Aneis), baseia-se no romance da norte-americana Alice Sebold, publicado em 2002, apresentando uma trama intrincada e bem observada que já demonstrava seu potencial para uma versão cinematográfica.
Jackson nunca foi um diretor contido — especialmente nos últimos filmes, nos quais o excesso é a regra. Por isso, procura não apenas mostrar, mas verbalizar no discurso de algum personagem aquilo que mostra na tela.
Em Um Olhar do Paraíso, Susie (Saoirse Ronan, de Desejo e Reparação) encanta-se com aquele lugar para onde vai depois de morta — a que chamam de “meio-termo”. Parte sonho lisérgico, parte parque de diversões, esse purgatório fofinho reúne todas as garotas assassinadas pelo mesmo sujeito — interpretado por Stanley Tucci (indicado ao Oscar de ator coadjuvante por este trabalho).
De lá, Susie observa esse homem e suas tramoias para encobrir seus crimes. Além disso, ele também joga uns olhares estranhos para a irmã mais nova de Susie, Lindsey (Rose McIver), que é também uma vítima em potencial.
De seu purgatório pessoal, a garota também assiste à dissolução de sua família. O pai, Jack (Mark Wahlberg, de Os Infiltrados), obcecado por capturar o assassino, negligencia a mãe e os outros filhos. A mãe, Abigail (Rachel Weisz, de Um beijo roubado), não aguenta a tragédia e vai embora de casa. Já Lindsey tenta levar a sua vida. Susie se preocupa com todos aqueles que ficaram, uma preocupação da qual o diretor parece não compartilhar.
O livro de Sebold força a narrativa a um extremo, no qual a menina morta é uma narradora onisciente que fala com seus leitores com uma franqueza brutal. Há algo de muito interessante na forma como a história se abre, como a tragédia maior alavanca pequenas tragédias individuais que ameaçam o núcleo familiar como um todo. O filme de Jackson, por sua vez, é muito menos audacioso. O diretor parece tão interessado em criar visuais bonitos que deixa de lado qualquer profundidade que a trama pudesse alcançar.
Combinando fantasia com um toque de morbidez, Um Olhar do Paraíso poderia fazer uma ótima companhia para um dos bons filmes de Jackson, Almas Gêmeas, de 1994 — no qual uma Kate Winslet estreante matava a mãe de uma amiga, com ajuda da garota, e as duas escapavam mentalmente para um mundo feito de massinha, no qual acreditavam que eram as rainhas e viviam um amor proibido, protegidas por cavaleiros armados.
O peso dos anos — ou talvez do sucesso — pode ter abalado a audácia e criação artística de Jackson, que sucumbe a um pastiche visual que não acrescenta nada à narrativa, e nem, ao menos, é tão bonito de se ver.
O título original do livro e do filme, The Lovely Bones (traduzido nas legendas como restos angelicais), não se refere apenas aos delicados restos mortais de Susie, mas, também, à trama complexa e frágil que une e separa as pessoas. Ao ignorar essa informação, o enredo se transforma num suspense banal.
Nenhuma matéria relacionada.
