Em que fonte você bebe?

31/1/2012 14:11,  Por Adital

Quembebe água salgada sentirá sua sede aguçar-se ainda mais. O deserto permaneceseco e estéril, não há trégua. Quem bebe em água doce e cristalina tê-la-átemporariamente aliviada, pode repousar por algum tempo no oásis. Certamentevoltará a sentir sede no longo percurso da viagem, mas terá descoberto ocaminho da fonte.

Sãoinúmeras e variadas as fontes que a sociedade do espetáculo, moderna oupós-moderna, nos oferece: ricas, iluminadas, atraentes, apelativas, enfeitadasde acessórios e atrativos, revestidas de cores e magia, envernizadas pelomarketing, acessíveis a todos os bolsos e idades… Basta percorrer as lojasdos shopping-centers ou os centros comerciais populares. Mas com frequência háuma forte pitada de sal publicitário que só faz agravar a sensação de sede e reacendero desejo imperativo.

Atravésde uma dinâmica espiral, cria-se um círculo vicioso. Uma propaganda insistentee estridente invade a existência, desperta a sede e desencadeia a corrida àfonte. Com relativa facilidade, realiza-se o desejo imediato dos objetos à vendacomo mercadoria ao alcance de todas as classes sociais. Águas abundantes, semdúvida, mas turvas e superficiais. Fortemente apimentadas e salobras, comlimitado prazo de validade. A sede se reaviva com força redobrada… E ocírculo se fecha. Uma gaiola de ferro da qual é difícil escapar.

Fontesfalsas e ilusórias, onde a água parece farta, mas cedo perde o efeito e oencanto. Miragens que enganam os olhos, sem acalmar a alma ressequida doperegrino. Este, seguindo a direção de tais alucinações, cambaleia em passoscada vez mais incertos e titubeantes, até perder o rumo do horizonte e aspróprias energias. Com algum tempo, enfraquece, definha e tomba. Logo serápasto dos abutres esfaimados.

Onde entãoencontrar a fonte de água doce e cristalina? De início, no íntimo de si mesmo.Extrair do tesouro da própria memória as pérolas que marcaram a vida. Podem sersucessos ou fracassos, alegrias ou tristezas, luzes ou sombras… Não importa!O importante é sacudir-lhes a poeira, dar-lhes novo brilho, ressegnificar suavalidade à luz do presente e de um futuro cheio de esperança. Se é verdade queos fatos do passado não mudam, é igualmente certo que o sentido dos mesmos dependeda iluminação de um reencontro consigo mesmo. Da redescoberta de antigas enovas motivações, de um entusiasmo rejuvenescido e de novo ardor na ação. Cadapessoa, na companhia de seu “eu”, descobrir-se-á um poço de água viva.

Em segundolugar, um encontro com o outro, a outra, os outros, as outras. Uma amizade oucompanheirismo autêntico também ilumina retrospectivamente as sombras daprópria trajetória. Neste caso, será necessário apostar em momentos deconvivência e convivialidade, de comensalidade, onde se partilha pão e vida.Descobrir a riqueza do “ócio criativo”, aprender a “jogar conversa fora”, saber”perder tempo” com os companheiros e companheiras de vida. Os conceitos de casae mesa, enquanto sinônimos de ambiente familiar e encontro, são fundamentais.Cultivar a refeição e o calor da lareira, curtir sem culpa as trivialidades docotidiano, reenergizar-se através do “estar juntos”. Aqui também há um poço deágua limpa e transparente.

Damesma forma que a trajetória pessoal, também a história de um povo constitui umpoço inesgotável de valores que nutrem a caminhada. Novamente aqui, de um pontode vista lógico, os fatos sociais não podem ser apagados. Como diz o ditadopopular, “a vida é a arte de escrever sem borracha”. Mas, desde o enfoque dosignificado, os mesmos fatos brutos, são continuamente lapidados. Umaexperiência forte de resistência, solidariedade e libertação, no aqui e agora,ao mesmo tempo em que iluminam os acontecimentos da história vivida, podemabrir os horizontes de um amanhã renovado. Expressões culturais e religiosascostumam vir carregadas de sabedoria, além de converter em luz as sombras dahistória. É o que ocorre com a saga do Povo de Israel. A experiência fundanteda libertação do Egito joga luz não apenas sobre o porvir, mas ressegnificaigualmente o que ficou para trás. Se é verdade que no coração de cada pessoa ede cada cultura existem sementes do Verbo, estas fecundam simultaneamente opresente, o passado e o futuro.

Amelodia do universo representa uma quarta fonte de água cristalina. Cada coisa,planta, animal ou pessoa faz parte de uma gigantesca orquestra. Nesta, échamada a tocar determinado instrumento musical único e irrepetível, numaharmonia ao mesmo tempo perfeita e descomunal. Na alquimia do silêncio, daoração e da contemplação, os próprios ruídos podem transfigurar-se em inefáveisnotas musicais. Tudo e todos cantam a glória da criação. A sinfonia não deixade tocar mesmo em meio às tempestades ou turbulências do cotidiano. As própriasameaças de devastação, de poluição e de naufrágio deste enorme Titanic que é oplaneta Terra, não impedem que o grande e invisível Maestro siga manuseando suabatuta.

Porfim, mas em primeiríssimo lugar a fonte primordial do “Abba=Pai” daespiritualidade de Jesus Cristo. Não é a única, se levarmos em conta hoje opluralismo religioso e as alternativas do hinduísmo, do budismo, do judaísmo,do islamismo, do candomblé, entre tantas outras. Mas, desde uma perspectivacristã, a trajetória de Jesus segue sendo “o caminho, a verdade e a vida”.Surgem espontâneas algumas perguntas: por que esse “profeta itinerante” serevela, a um só tempo, pobre e alegre, humilde e com tamanha autoridade? Porque se eleva acima do estrito cumprimento da lei, rompendo com qualquer tipo dediscriminação, preconceito e moralismo? A resposta é espantosamente simples: ohomem de Nazaré bebe no imenso oceano de amor que é a misericórdia do Pai.

Nutre-secontinuamente de sua luz, bondade e amor inesgotáveis. Daí apresentar-se tãolivre. Capaz de voar e cantar como os pássaros e as borboletas que cruzam osares; de abrir-se e sorrir como as flores do campo; de brilhar misteriosamenteem meio à escuridão, como as estrelas; e de correr e pular, brincar e dançarcom as crianças e os que se amam. Por cultivar uma profunda intimidade com oPai, não conhece encontros proibidos, não vê as pessoas como “problemas”,apenas pessoas que inauguram um tempo novo. Tampouco conhece as fronteirasentre povos, línguas, credos, bandeiras. A todos abre as portas do Reino deDeus, com particular predileção para os pobres cuja vida encontra-se maisameaçada e que se encontram à margem do caminho e da história. O Pai, os pobrese a alegria dos amigos constituem suas paixões. Por tais causas não hesita emsubir a Jerusalém e enfrentar o tormento da cruz.


Matérias Relacionadas:

  1. Danilo Gentili responde a crítica sobre racismo: “Você será apenas preto e eu, branco”




Compartilhe esta matéria:


Os comentários às matérias e artigos aqui publicados não são de responsabilidade do Correio do Brasil nem refletem a opinião do jornal.

Os comentários estão desabilitados!

Edição Impressa


Edição de Ontem