Dois gênios sem herdeiros
26/6/2008 14:04, Marjorie Rodrigues

Quadro da série Retirantes, de
Cândido Portinari, do acervo do Masp
Um deles é cético, cruel, de narrativa certeira. O outro, um malabarista da linguagem, criador de neologismos como “amormeuzinho” e “circuntristeza”. As histórias do primeiro se passam na cidade. As do outro, no sertão mineiro. Um é avesso ao misticismo, o outro é pura mágica. Mas, mesmo diferentes, Machado de Assis e Guimarães Rosa investigam a alma humana como pouquíssimos outros. Ambos mostram que, tanto no ralo cotidiano da classe média-alta do século XIX quanto no lento andar de um carro de bois, latejam questões universais. E mal nascia um, já morria o outro. Apenas três meses separam o nascimento de Rosa da morte de Machado, há 100 anos.
E eles não deixaram herdeiros. É o que pensa João A. Hansen, professor do departamento de Letras e estudioso do diabo em Grande Sertão: Veredas.
- Machado e Rosa são buracos negros que chupam para dentro deles tudo o que está à sua volta. Suas obras são singulares, impossíveis de imitar sem que o ridículo seja imediato - diz.
- Como Dante e Joyce, Rosa se recusa a escrever numa língua degradada, a nossa, e reescreve a língua portuguesa.
Quanto a Machado, Hansen acha que lê-lo nos deixa “mais livres, porque ele não tem esperança nem medo”. A variedade que Rosa apresenta na forma, Machado apresenta no estilo.
- Ele não é só realista. É tragicômico, paródico, humorado, terrível.
Mas não caia na besteira de tentar eleger o melhor.
- É como eu disse a um repórter da Folha que me perguntou qual dos dois era o maior - diz Hansen.
- A literatura não é um concurso de Miss Geléia Real.
Se compará-los ou imitá-los é ser ridículo, Rinaldo de Fernandes, professor da UFPB, não vê problema em reescrevê-los. Ele convidou vários autores – entre eles, Fernando Bonassi e Silvano Santiago – a criar sua própria versão para contos de Sagarana ou partes do Grande Sertão. A coletânea, chamada Quartas Histórias (Garamond), foi publicada em 2006.
- Sempre reúno escritores consagrados, emergentes e jovens promessas. E não dou exclusividade ao eixo Rio-São Paulo - conta. O resultado o surpreendeu.
- Há escritor que pôs Rosa no morro carioca.
Para comemorar o centenário, Rinaldo preparou também uma coletânea sobre Machado. Em julho, ele lança Capitu mandou flores (Geração Editorial), com ensaios e recriações. Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Marcelo Coelho são alguns dos nomes presentes no livro.
Diferentemente de Rinaldo, para quem “a literatura atual não está em entressafra coisa nenhuma”, Georg Ottes, professor da UFMG que estuda o diário de Guimarães Rosa à época da 2ª Guerra Mundial (quando ele era cônsul-adjunto em Hamburgo), acha que falta “amor pela diferença”.
- O estranho atrai Rosa. O amor pela diferença permeia sua obra literária e o diário. Hoje, a diferença é exibida – na literatura gay, por exemplo – com precisão anatômica. Parece que a literatura se tornou playground da transgressão. Mas a transgressão em si, como a diferença em si, não vale nada se não despertar um interesse que vá além do voyerismo - diz.
Para Otte, ninguém abordou melhor a homossexualidade do que Rosa, com Riobaldo e Diadorim.
- Diadorim pode ser um jagunço falso, mas as dúvidas de Riobaldo quanto à própria ‘macheza’ são verdadeiras.
Sua companheira na análise do diário, Eneida de Souza, também admira o amor de Rosa pela diferença.
- Ele trazia em si o gosto pela aventura, pelo novo e o inusitado, computando tudo que passasse por suas mãos.
Eneida diz que, no diário, já está o “germe do escritor”.
Há, porém, quem reclame da complexidade das obras de Rosa e Machado, geralmente identificadas como “livros de vestibular”. João Hansen acha que o interesse pelos dois está restrito a “pequenos grupos, como os especialistas da universidade”, o que lamenta.
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