Diário de um passageiro – rumo a Teresina, perigosamente perto de Timon

12/1/2012 14:08,  Por Leandro Mazzini

-> Brasília (JK) – Teresina  , dia 14 de dezembro, voo JJ3840, TAM , 9h58

Descobri na Wikipedia que o Piauí, com seus 251 mil quilômetros quadrados, é um pouco maior que o Reino Unido. Isso dá uma ideia do tamanho do espaço aéreo brasileiro, principalmente levando-se em conta que o estado não está entre os cinco maiores do Brasil em tamanho. Pois a primeira dúvida que tive ao reservar a passagem para Teresina, a capital, era saber se o avião pousaria mesmo no Piauí ou no Maranhão. Há dois meses um comandante teve a proeza de errar o aeroporto de destino e aterrissar em Timon, no estado maranhense, a cidade vizinha de Teresina, irmãs siamesas do sertão separadas apenas pela largura do belo rio Parnaíba (se eu estivesse a bordo, preferiria atravessar a ponte a pé ou rio a nado a decolar de novo).

mapatere

Pelo Google Maps, percebe-se que Teresina é colada em Timon. Mas os aeroportos são bem afastados um do outro

Teresina é encravada no Norte do Piauí, um estado que além do nome diferente carrega uma riquíssima cultura popular – o folclore piauiense é latente no orgulho de seus cidadãos. Se o comandante de meu voo por acaso errasse nosso destino e descesse na cidade de Amarante, eu visitaria o túmulo da Santa Finada Auta. Era uma prostituta famosa na cidade que foi enterrada fora do cemitério. Isso. Há um cemitério murado. Do lado de fora, o túmulo da excluída, a sociedade não a deixou perfilar-se entre os outros benquistos cidadãos amarantenses. Provou-se para o mundo, em Amarante, que uma prostituta é rejeitada até debaixo da terra. Para quem duvida, é só perguntar para o deputado estadual Homero Castelo Branco, devoto dela.

Se o avião pousasse em Oeiras, conferiria um folclore que ronda a cidade: os moradores do município com o maior número de deficientes mentais (proporcionalmente) do país têm a tradição de, ao casarem e construírem suas casas, reservar um quarto no fundo do lar para um futuro filho “doidinho”. Se desembarcasse em São Gonçalo, tentaria contar o número de motos por metro quadrado ou todas num intervalo de tempo numa rua. É a cidade com a maior quantidade de motocicletas do Brasil.

E se o piloto errasse mais um pouco, rumo ao Norte, conheceria em Esperantina a prostituta mais famosa do estado, a Mundoca. Lembro de tê-la entrevistado pelo telefone em 2001: 67 anos, 5 mil homens e 31 filhos (isso em 2001. Juram que ela se aposentou). (Com exceção de Mundoca, as outras histórias foram cortesia do repórter Luciano Coelho, do Diário do Povo, em Teresina).

Fato é que desci em Teresina, cidade cuja temperatura média anual não baixa de 27º C e passa fácil dos 35ºC no verão. Minha odisseia de sete dias seguidos em vários aeroportos começou por ali. Mas a aventura começou antes, ainda em Brasília, no Aeroporto JK. A TAM me presenteou com um overbooking (prática corriqueira nas companhias, quando o cidadão sobra, mesmo com passagem comprada, porque a empresa vendeu mais bilhetes que assentos).

teresina

Desembarque em Teresina. Haja fôlego e pernas

Cobrei explicações de um atendente. Resumiu-se em dizer que eu estava “em espera”. Isso tudo porque eu reservei a passagem um mês antes pelo programa de milhagem. Antes que ele me sugerisse o bagageiro do Airbus, exigi o meu assento reservado, com ameaça de processo contra a companhia. Milagrosamente um assento surgiu. (A dica que dou ao passageiro amigo nestas ocasiões em que se enquadra “em espera” é que você espere, de pé, na frente do(a) atendente, que ele(a) vai achar o seu assento).

Uma vez em Teresina, notei o descaso da Infraero com o passageiro. Não há fingers para o desembarque, ou qualquer conexão do avião com o terminal. Anda-se livremente pela pista num espaço de uns 20 metros até o saguão de desembarque. Se um louco suicida invadir a pista, o piloto que se vire para salvar um avião lotado em processo de pouso ou decolagem. (Há outros aeroportos em que se anda pela pista).

teresina

O saguão em Teresina: pequeno e com sanitários em obra

Dali, outra aventura. Achar a sua mala numa única esteira na sala apertada, sem vazão de ar condicionado, onde os 150 de um Airbus parecem uma multidão comprimida e ansiosa para fugir. E apesar do nome grande e pomposo – Aeroporto Internacional de Parnaíba – Prefeito Dr. João Silva Filho – o terminal é pequeno e apertado, parece uma rodoviária mal cuidada. Os toillets no saguão de check in estavam em obra, o cidadão só entrava no sanitário masculino passando debaixo de uma escada, de poeira e do sujeito com a furadeira em ação.

Puxei papo com um engraxate boa praça que trabalha em frente à minúscula banca de jornal no terminal. A exemplo de taxistas, creiam, engraxates sabem de tudo. Ele até conhecia o editor do jornal que eu visitaria. Não que Teresina seja pequena para todos se encontrarem, mas descobri que ele é fã da coluna do citado, e foi direto ao caderno de Política assim que deixei o exemplar com ele. Gostei da cena. Engraxate é culto. Eu levei o caderno de Esportes.

Fiquei três horas em Teresina, o suficiente para minha reunião. No retorno ao aeroporto, conheci o segundo pavimento. A Infraero aproveitou parte do espaço para distribuir cadeiras, e a outra para dois restaurantes pequenos, onde almocei. Se sobra camaradagem em uns, falta instrução a outros. Os funcionários da estatal não souberam me informar onde havia tomada para conectar a fonte de meu netbook (acreditem, em todo o pavimento só encontrei uma). E ficou por isso mesmo. Ninguém saiu da sala para mostrar se havia um.

Ainda no pavimento superior , em frente aos restaurantes, também há um mirante para a pista. Que fica lotado, vejam a foto. Os piauienses adoram uma despedida, ou chegada. Da pista, os conterrâneos que desembarcam acenam para o mirante – e quem não tem quem cumprimentar, manda um olá para o pobre coitado do funcionário da BR Aviation que reabastece os aviões, postado inerte com o tédio peculiar à cena de seu posto de trabalho.

O setor do embarque é outra sala de lamúrias discretas e ocultas – vê-se pelo semblante dos passageiros. O cidadão é obrigado a passar por uma porta apertada, onde apenas um segurança controla o circuito. Lá dentro, pouquíssimos assentos fazem a maioria ficar de pé, encostados nas paredes ou pilastras. E, no embarque, mais andança no pátio. A sala de embarque, no entanto , vai crescer, provam as obras: vigas de aço já compõem o cenário externo, um “puxado” que avança para o pátio, aquele tipo de construção que se vê em outros aeroportos: em vez de base sólida e duradoura com concreto e ampliação do terminal para valer, as empreiteiras usam aço, gesso e madeirite em cantos localizados. Para disfarçar o improviso, fixam um mármore brilhante no piso e instalam poltronas novas.

teresina

Sala de embarque: lotada e com poucos assentos

Os piauienses, tão calorosos e alegres, não merecem o aeroporto que têm.

Na decolagem, lembrei-me de Oeiras, Amarante, São Gonçalo, Esperantina, e tudo o que infelizmente não vi. Depois que Teresina sumiu da vista, tive certeza de que a Timon maranhense também ficara para trás, e o piloto não erraria nosso aeroporto de destino, o Aeroporto Internacional Marechal Cunha Machado, em São Luís (MA), alvo da próxima reportagem.


Matérias Relacionadas:

  1. Elza Campos: Trabalhadoras rumo à Marcha das Margaridas 
  2. Número de candidatos do Enem chega perto dos 5 milhões a um dia do fim da inscrição
  3. Tempestade Irene ganha força de furacão e segue rumo ao Haiti




Compartilhe esta matéria:


Os comentários às matérias e artigos aqui publicados não são de responsabilidade do Correio do Brasil nem refletem a opinião do jornal.

3 Comentários para “Diário de um passageiro – rumo a Teresina, perigosamente perto de Timon”

  1. antonio

    isto é o Brasil profundo não mencionado nos jornais e Tvs das gandes metrópole, por isso esquecido

  2. Jô freitas

    Eu sou de Parnaiba e estudei em Terezina. Os terezinenses diziam que a bandeira de Parnaiba era um couro de bode e eu para sacanea-los dizia que Terezina se situava em cima das caldeiras do inferno. Assim era a rivalidade entre Parnaiba (litoral) e Terezina na Chapada do Corisco. Duas realidades bem diferentes. Mas a culpa de toda esta situaç~çao é o descaso dos politicos que pouco se importam com o bem estar do povo.

  3. Mario Marcelino

    PIAUI – Estado da região nordeste com uma população de menor renda percápita do país.Povo sofrido,amargurado com os antigos políticos “do coronelismo” retrógado de velhos tempos. O custo benefício não pode ser praticado por aquela gente,diria que a ampliação no aeroporto só vai beneficiar meia dúzia de político.Por falta de recurso, o piauiense troca o transporte rodoviário convencional, por ônibus pirata,correndo o risco de acidentes assalto, etc e etc.

  4. Isabel Cristina

    Caro Leandro,

    Tão bem informado e trocou o nome dos Aeroportos. O que vc citou é o nome do de Parnaiba…O de Teresina é Aeroporto de Teresina/Senador Petrônio Portella. Outra coisa, já que vc pensa ser tão bem informado sobre aeroportos, há diferença entre pátio e pista. Pista é onde a aeronave pousa e em seguida, através de uma pista de táxi chega ao pátio,onde os passageiros embarcam e desembarcam. Em Teresina, os passageiros andam no pátio e não na pista…Antes de escrever, tenha o cuidade de pesquisar em fontes corretas e até conhecer sites que explicam tais diferenças, como os da ANAC, por exemplo.

Os comentários estão desabilitados!


Últimas buscas:
  1. para sair de teresina para timon como fazer video
  2. google maps - indaiatuba
  3. diario de um passageiro
  4. teresina
  5. segurança do aeroporto dr joão silva filho
  6. rio cemitério quinta da bela olinda bauru
  7. metropoles teresina
  8. jornal de terezina
  9. 300 trabalhadores chineses ameaçam suicidio
  10. fotos da cidade amarante piaui


Edição Impressa


Edição de Ontem