Neonazistas ampliam presença na Europa após golpe em Kiev

14/3/2014 14:13
Por Daniella Cambaúva - de Londres


A potência norte-americana financia os setores oposicionistas, a maioria deles de extrema-direita e neonazistas. E se movimenta politicamente e diplomaticamente

A potência norte-americana financia os setores oposicionistas, a maioria deles de extrema-direita e neonazistas. E se movimenta politicamente e diplomaticamente

As notícias sobre os distúrbios na Ucrânia no mês de fevereiro preocuparam não apenas pelo número de vítimas ou por questões geopolíticas, mas também por terem servido de alerta à obstinação de neonazistas entre a extrema-direita no segundo maior país da Europa. Manifestações antissemitas e xenófobas, aliadas a uma forte rejeição ao passado soviético: bandeiras da SS nazista foram, durante os protestos, colocadas sobre a estátua tombada de Lênin.

Em meio a pichações da suástica e explosões perto das sinagogas, rabinos alertaram sobre possíveis ataques à comunidade judaica, estimada em 200 mil judeus, a terceira maior da Europa.

Entre os manifestantes com distintas reivindicações, estão os da extrema direita. Parte dela – e daqueles que definem a si mesmos como neonazistas – se concentra no partido Svoboda (Liberdade). O que preocupa, apesar do argumento de que os extremistas são uma minoria, é justamente o fato de a legenda ter representação parlamentar – 37 cadeiras. E essa onda está “apenas começando”. Pelo menos é o que afirma uma liderança do Right Setor, outro grupo ultranacionalista que despontou na Ucrânia e que promete “a grande reconquista”, apoiando-se nos valores da família e na moral cristã.

O Right Setor e o Liberdade, membro da Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus (AMNE), que reúne partidos nacionalistas conservadores daquele continente, não estão sozinhos. A ascensão da extrema-direita e de grupos neonazistas despertou o temor de que, com a crise econômica, a correlação de forças na Europa se iguale àquelas que sucederam a Primeira Guerra Mundial.

Há cada vez mais partidos de direita e de extrema-direita, além do crescimento de organizações neonazistas que conseguem se firmar como partido. Em sua mira, estão os jovens afetados pelo desemprego.

Na Grécia, por exemplo, destacou-se depois da crise econômica o partido extremista conservador Aurora Dourada, fundado em 1985. Em 2012, ele conseguiu eleger 18 entre 300 Parlamentares. Seu principal discurso se baseia na xenofobia: se as fronteiras do país forem fechadas e se todos os imigrantes forem expulsos, os postos de trabalho serão retomados pelos gregos. Na Grécia, uma das principais portas de entrada dos imigrantes na União Europeia, já é possível contabilizar agressões a estrangeiros, e seus autores se proclamaram membros da Aurora Dourada.

Na França, Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional, é a cara da extrema direita no país. Membro do Parlamento Europeu desde 2004, obteve 18% dos votos no primeiro turno das últimas eleições presidenciais, em 2012. Marine segue os passos do pai, líder histórico da legenda, Jean-Marie Le Pen que, em 2002, chegou ao segundo turno com Jacques Chirac. Acompanhando o atual conservadorismo europeu, ela apoia seu discurso na xenofobia e tenta desvencilhar a imagem do partido como simpatizante do nazismo. Seu pai, em 1987, havia classificado as câmaras de gás de Hitler como um “detalhe da história”. Devido à crise, sua tese é a de que, com o desemprego, o país não pode mais receber estrangeiros, ainda que a situação deles seja dramática. É crítica também à presença de massiva de muçulmanos na sociedade francesa. Para ela, as orações realizadas nas ruas, provocadas pela falta de mesquitas, são como uma “nova forma de ocupação”, semelhante à dos alemães nazistas.

No Reino Unido, é a vez do Partido da Independência (UKIP), com a defesa de fechar as fronteiras e deixar a União Europeia. Com nove cadeiras no Parlamento Europeu, conquistadas nas eleições de 2009, não tem representação no Parlamento britânico, mas conseguiu aproximadamente 25% do total de votos municipais nas eleições de 2013, segundo estimativa feita pela (agência britânica de notícias) BBC.

Na Alemanha, onde partidos neonazistas são proibidos, existem organizações que atuam clandestinamente, como a NSU (Clandestinidade Nacional-Socialista, na sigla em alemão).

O governo alemão já admitiu, em diversas ocasiões, dificuldade em controlar essas instituições. Recentemente, dados de uma pesquisa do Ministério do Interior revelam que um em cada sete adolescente alemães, 14,4% do total, se consideram “muito racistas diante dos estrangeiros”, e 30% responderam “sim” ao serem questionados se há estrangeiros em excesso no país. A pesquisa mostrou também que 5% dos 44.600 jovens de quinze anos são membros de algum grupo de extrema direita e que 6.4% dos adolescentes homens têm pontos de vista antissemita.

Em dezembro de 2013, um dos partidos da extrema-direita alemã, o Partido Nacional Democrático (NPD), fundado em 1964, enfrentou um processo judicial por denúncia de proximidade ideológica ao nazismo. Com xenofobia extrema, seu discurso se concentra em ciganos e muçulmanos. O partido promete não descansar até que seja fechado o último albergue para imigrantes, pois temem um dia se tornarem “estrangeiros” em seu próprio país. No contexto da crise, desde 2011 o número de imigrantes a ingressar no continente europeu por conta do conflito na Líbia e na Síria. Do continente africano, tentam entrar pela Espanha, França, Itália e Grécia principalmente.

Na Noruega, o neonazismo chamou atenção para um problema latente em 2011, quando o jovem Anders Behring Breivik cometeu um atentado que matou 77 pessoas. Autor de um manifesto, se autodenomina nazista e foi condenado a 21 anos de prisão. Na ocasião, se desculpou com os seguidores por não ter conseguido mais vítimas.

Atualmente, bem como no passado, o extremismo conservador mostra seu poder de apelo magnificado pela rendição de parte da esquerda, que se ofereceu ao capital como “gestora confiável da crise”.

A verdade é que na Europa, como no resto do paneta – e com raras exceções na América Latina – o programa da esquerda tem nada ou muito pouco a oferecer em ternos de alternativa ao escalpo de empregos, direitos sociais e conquistas trabalhistas com o qual as elites e organismos internacionais pretendem exorcizar o maior colapso do capitalismo desde 1929. Quem fala grosso em seu lugar é o extremismo fascistoide, cujo discurso oferece as soluções radicais de um cardápio histórico conhecido, sendo a “caça aos miseráveis que concorrem com os nossos miseráveis”, o prato de resistência mais popular. Já contra o grande capital, nada; ou melhor, parceria remunerada pela vigilância bélica da ordem.

Daniella Cambaúva é jornalista.






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