Rio de Janeiro, 15 de Agosto de 2026

Delação de Funaro coloca Temer em alerta após denúncia sobre Docas

Funaro teria fitas de áudio e vídeo dos parlamentares que o procuravam para receber propina e Temer pode ter sido citado nas gravações

Sábado, 02 de Julho de 2016 às 12:04, por: CdB

Funaro teria fitas de áudio e vídeo dos parlamentares que o procuravam para receber propina e Temer pode ter sido citado nas gravações

 
Por Redação - de Brasília, São Paulo e Santos, SP
  Diante de uma série de denúncias sobre a livre circulação de dinheiro sujo nas campanhas do PMDB, partido que o elegeu para a Presidência e o sustenta na condução do golpe de Estado, em curso, o presidente de facto, Michel Temer, vê aumentar o risco de o Supremo Tribunal Federal (STF) o considerar réu por desvios milionários na Petrobras e em outras empresas públicas. Circulou neste sábado, em blogs e redes sociais, a denúncia de que Temer seria beneficiário de um esquema de corrupção no Porto de Santos.
temer-cunha.jpgTemer e Cunha são aliados de longa data e ambos apoiam a agenda conservadora
De acordo com reportagem publicada no site Viomundo, do premiado jornalista Luiz Carlos Azenha, nesta manhã, Temer seria alvo de um inquérito no qual é citado como receptador de propina gerada em contratos fraudulentas na Companhia Docas do Estado de São Paulo (Docas-SP). A denúncia surge em um processo de violência doméstica, no qual a mulher, após uma surra do marido, resolve denunciá-lo à polícia. Em seu depoimento, o investigado cita a origem dos milhares de reais gastos em companhia da esposa maltratada. O ‘requerido’, segundo os documentos, levava 25% da propina no Porto de Santos. Cinquenta por cento do total, de acordo com o processo, ficavam com o hoje presidente de facto, Michel Temer. Azenha nomeia a fonte em que baseia a reportagem como ‘Garganta Profunda’, a exemplo daquele norte-americano que revelou o escândalo de Whatergate, decisivo para a queda do então presidente, Richard Nixon.
Leia, adiante, a matéria publicada no Viomundo:
“O Viomundo noticiou em 10 de junho de 2016 a longa viagem de um inquérito que poderia ter apurado propinas de ao menos R$ 2,7 milhões supostamente recebidas pelo então deputado federal Michel Temer em esquemas no porto de Santos. Não deu em nada. “O principal motivo aparente é que a proponente da ação de “reconhecimento e dissolução de união estável com partilha e pedido de alimentos” desistiu do processo, depois de fazer acordo com o ex-marido. Em 24 páginas, os advogados Martinico Izidoro Livovschi e Sergio Paulo Livovschi descrevem uma história de amor, luxo, propinas e violência. “O casal se conheceu em maio de 1997, em Brasília. “Como soi acontecer em filmes e livros, apaixonaram-se à primeira vista”. “Ele, presidente da Companhia Docas do Estado de São Paulo, a Codesp, indicado por Michel Temer. Ela, estudante prestes a prestar vestibular de psicologia. A lua de mel foi em Boston e Nova York. Ela decidiu estudar em São Paulo. Passou a receber R$ 5 mil “para auxiliar nas despesas fixas”. “Houve “românticos passeios de gôndola” em Veneza, numa viagem com os pais do noivo que incluiu Roma e Florença. “De verdadeira paixão foram acometidos. Logo nesta primeira viagem, demonstrando a intensidade do sentimento que lhe aflorava, o requerido deu à requerente presentes caríssimos, adquiridos nas finíssimas lojas Louis Vuitton e Chanel Boutique em um total de quase três mil dólares”. “Viajaram para Miami. No Natal de 1997, cearam no restaurante Apollinari da rua Oscar Freire. Visitaram Nova York e New Orleans. Em janeiro de 1999, nova lua-de-mel em Cancun, no México: conforme demonstram as fotos, “passearam, jantaram, mergulharam e brincaram com golfinhos”. “Foram a Vail, a estação de esqui no Colorado, com os filhos do primeiro casamento dele. Em outubro de 1999, voltaram à Itália, mas seguiram para as ilhas gregas e, na volta, jantaram no Lucas Carton, em Paris. “O dia dos namorados de 2000 foi em Buenos Aires. “A convivência familiar com o intuito de constituir família. A fidelidade. O mútuo amparo”. “Quando ele tinha a guarda dos filhos, “a requerente deles cuidava, cozinhava, passeava, etc. Havia almoços de domingo na casa dos pais dele. Recebiam amigos. A requentente organizava as festas e recepções dele. Recebiam os amigos na casa deles na praia”. “Foram inúmeras juras de amor demonstradas através de bilhetes, cartões, etc.’, conforme as provas. “Ah, mas havia violência. “Sempre que exagerava no consumo de álcool, o que ocorria quase que diariamente”, o amante “voltava sua violência para a requerente, agredindo-a inúmeras vezes’. “Ela, porque o amava e ainda o ama, jamais deu queixa e relutava em abandoná-lo’. “Apanhou no dia dos Namorados de 1999. Apanhou no dia do aniversário dele, em 27 de abril, e apanhou de novo no dia 15 de julho — “decidiu sair da casa dele, por não haver mais quaisquer condições de manter a união estável. Quando saiu, passou por diversas humilhações. O requerido lhe tomou o cartão de crédito conjunto e seu celular. Não lhe devolveu suas roupas e objetos pessoais que estavam no apartamento”. “Ao longo do relacionamento, ela testemunhou que ele comprava bens mas colocava em nome de familiares: o Porsche Carrera, o Passat importado, a Mitsubishi Pajero e o Mercedes Benz C230. Uma casa de praia em Caraguatatuba, um apartamento na Ministro Godói, salas comerciais no edifício Park Avenue e “tapetes orientais de altíssimo valor, conforme certificados de garantia anexos”. “Mas, por que? “O motivo é que, como presidente da Codesp, tinha determinada renda e não teria como comprovar a origem de recursos para aquisição destes bens’. “Foram 42 mil só para instalar o som em um apartamento. “É que o grosso dos recursos obtidos pelo requerido vinha de caixinhas e propinas recebidas em razão de seu posto como presidente da Codesp”. “Onde ele guardava o dinheiro? “O produto desta renda é colocado em contas no exterior que o requerido mantém, principalmente junto a bancos suíços (doc. 87) e americanos, mantendo também cartões de crédito vinculados a tais contas (doc. 88)”. “O requerido teria pedido exoneração da Codesp para atuar com empresa própria na locação de equipamentos para os terminais do porto. “Ocorre que utilizando de seu prestígio e conhecimento o requerido fazia os contatos e contratos e desses tirava sua parte. Isso tudo, Exa., para demonstrar que o requerido possui renda muito superior à declarada em suas declarações de renda, conforme ficará provado em regular instrução processual’. “Ele, alegavam os advogados, seria sócio oculto de um restaurante no Jockey Clube de São Paulo, sócio de outro em um shopping do Tatuapé e de um estacionamento na avenida Paulista. “A requerente pede R$ 10 mil mensais de pensão. “É que embora tenha saído do lar ‘convivencial'”, na realidade ela “foi praticamente expulsa, tendo em vista as agressões sofridas e o temor de possíveis novas agressões. Está vivendo de favor em casa de amigos. Não possui qualquer fonte de renda para pagamento de sua faculdade e despesas pessoais. Corre o risco de não poder mais cursar a faculdade. Não fosse por seus amigos, não teria sequer onde morar e o que comer”. A ação é datada de 11 de agosto de 1999, mas nunca houve a ‘regular instrução processual’ esperada pelos advogados. “A requerente fez acordo com o requerido. Os advogados foram “desconstituídos’. “Os inquéritos que nasceram da ação tiveram morte lenta e definitiva. Nunca se soube se por falta de interesse na investigação ou intervenção externa”.

Temer e Cunha

As denúncias que recaem sobre Temer, hoje, são idênticas àquelas respondidas, na Justiça, por seu fiel escudeiro, o presidente afastado da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Tanto um quanto o outro estão na delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. O delator afirmou, aos delegados da Polícia Federal, que Temer assumiu a presidência do PMDB com o objetivo de controlar a destinação de recursos doados a políticos do partido para campanhas eleitorais. Em recente entrevista, Temer chamou de “irresponsável, leviana, mentirosa e criminosa” a declaração do ex-presidente da Transpetro, de quem era amigo pessoal, até a deflagração da Lava Jato. — Eu quero fazer uma declaração a respeito da manifestação irresponsável, leviana, mentirosa e criminosa do cidadão Sérgio Machado. E quero dizer aos senhores e as senhoras que eu falo, em primeiro lugar como homem, como ser humano, para dizer que a nossa honorabilidade está acima de qualquer outra função ou tarefa pública que exerça no momento ou venha a exercer”, disse o presidente de facto. No depoimento à PF, no âmbito da Operação Lava Jato, Machado detalhou o encontro com Temer em setembro de 2012, no qual pediu R$ 1,5 milhão para a campanha de Chalita, pagos pela construtora Queiroz Galvão ao diretório do PMDB. Temer ameaçou processar Machado, após afirmar que não deixaria as denúncias “passarem em branco”. O conteúdo da delação foi revelado após homologação do Supremo Tribunal Federal (STF), há três semanas. Em troca da colaboração, Machado e seus parentes poderão ter a pena reduzida, se condenados por alguns dos crimes dos quais são apontados. Com Temer no comando do PMDB, ao lado de Cunha, as nomeações para cargos executivos, em empresas estatais, serviriam para encobrir os esquemas de corrupção, muitos deles denunciados em atos dos movimentos sindicais.

Delação de Funaro

No ano passado, o Sindicato dos Portuários do Rio realizou uma manifestação em frente à sede de Docas. O ato foi um protesto contra a posse do novo presidente da CDRJ, Alexandre Porto Gadelha, ex-diretor da Nuclebrás. O fato de ter sido indicado por Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, “hoje maior algoz dos trabalhadores brasileiros, e pelo deputado Leonardo Picciani, é motivo de enorme preocupação para os portuários”, afirmou, à época, a Central Única dos Trabalhadores, em nota. Agora, a possível delação premiada do empresário Lúcio Funaro poderá servir como a cereja do bolo de processos contra Temer. Apontado como principal operador de Cunha, Funaro é apontado como fonte dos recursos ilícitos que sustenta a base de apoio do deputado Eduardo Cunha, no total de mais de 200 parlamentares na Câmara, segundo denúncias protocoladas no STF. Funaro teria fitas de áudio e vídeo dos parlamentares que o procuravam para receber propina. Após ser preso, na véspera, Funaro dispensou o criminalista Antônio Claudio Mariz, amigo pessoal de Michel Temer e não trabalha com delações. Em seu lugar, Funaro teria nomeado um escritório de Curitiba, responsáveis pelo encaminhamento da maioria das delações premiadas da Operação Lava Jato. Entre eles está o do advogado Figueiredo Basto que, ao Correio do Brasil, disse declinar do caso contra o aliado de Cunha.
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