Decisão em Carajás: lago ou minérios?
22/2/2012 15:03, Por Adital
Em 1967, um pequeno grupo de geólogos, contratados poraquela que era então a maior siderúrgica do mundo, a United States Steel,confirmou em pesquisa de campo: 500 quilômetros ao sul de Belém, a 900quilômetros do litoral norte, em plena selva amazônica, havia a melhor jazidade minério de ferro do planeta.
Carajás era um paraíso. O minério mais usado pelo homemdesde tempos imemoriais aflorava no alto dos platôs cobertos por vegetaçãorasteira, em altitudes que chegavam a 600 metros. As encostas eram tomadas, emgrande densidade, por árvores altas, que se espraiavam por todas as direções.Circundando as serras, dois rios portentosos – o Itacaiúnas e o Parauapebas –serpenteavam suas águas. A fauna era rica, exuberante. Aquele lugar mereciaservir de imagem para o Éden.
Minério e natureza selvagem são termos acompanhantes – etambém conflitantes, antitéticos. A extração de um é feita à custa daintegridade da outra. Mas nunca esse choque foi tão forte quanto em Carajás.
Originalmente, esse enorme depósito de ferro devia serlevado para os Estados Unidos, como, em décadas anteriores, ocorrera com omanganês do Amapá, minério vital para a siderurgia. Mas quando a US Steel seretirou do empreendimento, em 1977, a estatal Companhia Vale do Rio Doce, quesucedeu a multinacional americana, desviou o rumo para o Oriente. A hematita doPará atravessaria 20 mil quilômetros de mares e iria preferencialmente para oJapão, até então abastecido pela Austrália, que estava quatro vezes maispróxima.
Ao chegarem a Carajás, os japoneses se deslumbravam. Diga-seque não era apenas pelo fato de que o teor de hematita na rocha daquela regiãopossuía o dobro da qualidade do similar australiano. Era também porque a ricapaisagem contrastava com a aridez das zonas mineiras tradicionais. Ambienteigual não existia. Só em Carajás.
Em 2007 a Vale, privatizada 10 anos antes, comemorou oprimeiro bilhão de toneladas produzidas em Carajás. Dava a média de 45 milhõesde toneladas por ano. Nos primeiros anos após a inauguração da mina, em 1984, aprodução não fora além de 25 milhões de toneladas, que era a meta do projeto.Nos anos imediatamente anteriores ao 1º bilhão, a produção foi de 90 milhões detoneladas.
Neste ano já devia passar para 130 milhões, mais de um terçode toda a produção da Vale, que é a segunda maior mineradora do mundo (depoisda anglo-australiana BHP Billiton) e a maior vendedora de minério de ferro quecircula pelos oceanos. Mas desde 2006 a produção não cresce, derrubando asmetas quantitativas fixadas pela empresa.
Era porque a Vale não conseguia liberar seus novos projetosem Carajás. Só no final do mês passado, depois de 10 anos sem expedir qualquerdocumento para a companhia, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dosRecursos Naturais Renováveis aprovou o licenciamento ambiental para ofuncionamento da quinta mina na parte norte da jazida.
O ato foi muito comemorado, mas dele não resultará qualquermodificação na escala da extração. Melhorará apenas a qualidade da mercadoria,já que a mina liberada contém minério de melhor teor do que o das minas já emexploração e algumas a caminho da exaustão.
Para a Vale, o mais importante é se essa aprovação indicar atendência do Ibama de repetir o licenciamento, talvez ainda neste ano, de umanova área de mineração, ao sul das minas que estão em atividade há quase 30anos. A Serra Sul tem mais e melhor minério. Por isso proporcionará à Valedobrar a atual produção. Mas também é uma paisagem ainda mais deslumbrante erara.
No conjunto de serras do sul do distrito mineral há um beloe profundo lago perene. Talvez não haja um só igual em todas as zonas mineirasdo planeta. Há várias cavernas, nas quais o homem viveu, a partir algunsmilhares de anos atrás. São testemunhos arqueológicos valiosos. Um antigogerente de Carajás quis dinamitar cavernas da Serra Norte, que abriram um novocapítulo para a reconstrução da presença humana na Amazônia. Foi contido.
Desde então, cavernas têm que permanecer intocadas em áreasde mineração. Se assim continuar, Serra Sul não poderá existir. Mas ela é umprojeto de oito bilhões de dólares (10% desse total previstos para uso nesteano). Ao preço de hoje, permitiria à Vale faturar mais do que US$ 10 bilhõespor ano, mandando 60% de toda a sua produção para a China.
São quantidades de causar impacto, como vem acontecendo emCarajás desde 2001, quando os chineses, que até então eram um cliente de poucasignificação (compravam 5% do minério da Vale), começaram a avançar sobre asmontanhas de minério rico. Suplantaram seus vizinhos japoneses e agora pesamnos destinos da Vale –e do Brasil– como, talvez, nenhum outro país em toda ahistória nacional.
Graças a isso, no ano passado o lucro líquido da Valerepresentou quase 10 vezes mais do que os US$ 3,3 bilhões pagos em 1997 aogoverno pelo controle acionário da estatal, a jóia da coroa das privatizaçõesrealizadas a partir do governo Collor (e só na aparência interrompidas pela administraçãodo PT, aparência desfeita de vez pela alienação de três aeroportos até entãooficiais).
Quase metade dos US$ 30 bilhões de lucro de 2011 serãoinvestidos pela Vale neste ano. O principal empreendimento é o de Serra Sul,que praticamente recomeça a história de Carajás e dá um salto (talvez mortal)nas transações com a China. Cavernas e lago terão vez nessa agenda de cifrões?
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