Cruz Vermelha critica invasão de sede em Jerusalém
27/1/2012 13:33, Por swissinfo.ch - O portal suíço de notícias
A polícia israelense prendeu em 23 de janeiro dois parlamentares do grupo radical Hamas que estariam se escondendo em um complexo da Cruz Vermelha Internacional em Jerusalém.
A porta-voz da organização, Cecilia Goin, protesta. Autoridades israelenses justificam a ação por questões de segurança.
Segundo a porta-voz da Cruz Vermelha em Jerusalém, a entrada de policiais israelenses no complexo da organização e a detenção de dois deputados do Hamas que estavam abrigados no local, na última segunda feira (23), foi um episódio sem precedentes.
“Não temos registro de episódios semelhantes desde que o escritório permanente da Cruz Vermelha Internacional em Jerusalém Oriental foi aberto, em 1967″, disse a porta-voz da organização, Cecilia Goin, à swissinfo.ch.
De acordo com o relato da porta-voz, policiais e agentes de segurança israelenses vestidos à paisana entraram no complexo da Cruz Vermelha e detiveram os deputados do Hamas, Haled Abu Arfa e Mohamed Totah, que estavam abrigados no local desde julho de 2010.
Segundo as autoridades israelenses, o complexo da Cruz Vermelha não tem imunidade diplomática e, portanto não há impedimento à entrada de policiais no local.
No entanto, Goin afirmou que a ação policial foi efetuada sem qualquer aviso prévio à Cruz Vermelha.
“Segundo o artigo número 4 da Convenção de Genebra, os palestinos que vivem em Jerusalém Oriental são considerados civis protegidos pela lei internacional, por estarem em território ocupado”, afirmou a porta-voz da Cruz Vermelha.
Os dois deputados buscaram refúgio na Cruz Vermelha depois que as autoridades israelenses anunciaram o cancelamento de seu direito de residência em Jerusalém, embora ambos tenham nascido na cidade.
” Não temos registro de episódios semelhantes desde que o escritório permanente da Cruz Vermelha Internacional em Jerusalem Oriental foi aberto, em 1967 “
Cecilia GoinExpulsão
O cancelamento da residência significa a expulsão para a Cisjordânia e a separação das famílias, que moram em Jerusalém.
Cecilia Goin citou outro artigo da Convenção de Genebra, que estaria sendo violado pelas autoridades israelenses.
“O artigo 39 proíbe um país ocupante de transferir a população ocupada para outros lugares”, disse.
A Cruz Vermelha Internacional serve de guardiã do Direito Internacional Humanitário, conforme especificado nas Convenções de Genebra.
Fundada em 1863, na Suíça, a Cruz Vermelha é considerada a organização humanitária mais importante do mundo e sua função é dar proteção e assistência a vitimas de guerra e de outras situações de violência.
Para manter sua neutralidade, a organização evita fazer comentários de caráter politico.
“Mantemos um diálogo constante com o governo de Israel”, disse a porta-voz e acrescentou que a Cruz Vermelha pretende acompanhar a situação dos deputados palestinos detidos em seu complexo e visitá-los na prisão.
Advogado critica a Cruz Vermelha
O advogado dos deputados palestinos, Fadi Kawassme, disse à swissinfo.ch que a Cruz Vermelha “não cumpriu seu papel, de proteger civis, como deveria”.
Kawassme afirmou que ultimamente a Cruz Vermelha teria tratado seus clientes de maneira “hostil, como se quisesse se ver livre deles”.
O advogado também criticou o fato de que a organização não publicou uma condenação ao governo de Israel após o episódio e se limitou a relatar os fatos.
Depois da detenção de Abu Arfa e Totah, um grupo de palestinos invadiu o complexo da Cruz Vermelha, acusando a organização de “ter entregado” os deputados às autoridades israelenses.
“Eles estavam furiosos, gritaram muito e descarregaram sua frustração contra nossos funcionários”, disse Goin, “mas nós havíamos prevenido os deputados, desde o inicio, que não poderíamos impedir a detenção deles dentro de nossas instalações, pois não temos imunidade diplomática”.
O chefe da equipe de negociações palestina, Saeb Erekat, condenou a detenção dos parlamentares e afirmou que esse foi um ato “de agressão escandalosa” por parte de Israel, que demonstra que “sua retórica de paz não passa de uma farsa”.
Posição de Israel
O porta-voz da policia de Israel, Mickey Rosenfeld, afirmou que os deputados “estão sendo interrogados por liderar atividades do Hamas em Jerusalém”.
Israel considera o Hamas, grupo islamista que controla a Faixa de Gaza, uma “organização terrorista” e não distingue entre o braço armado e o braço politico do grupo.
Militantes do Hamas cometeram dezenas de atentados suicidas contra civis israelenses, que deixaram centenas de vitimas.
As autoridades israelenses já prenderam 27 membros do Parlamento palestino, 24 deles pertencem ao Hamas e três são representantes de outros partidos.
Vários dos parlamentares detidos foram condenados à prisão administrativa, sem direito a um julgamento.
Guila Flint, swissinfo.ch
Tel Aviv
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