Rio de Janeiro, 22 de Janeiro de 2026

Crise migratória: a volta de uma perigosa rota de refugiados

O drama europeu dos refugiados não começou com as longas caminhadas através dos Bálcãs. Teve início muito antes

Segunda, 11 de Abril de 2016 às 07:40, por: CdB

 

Com o caminho pelos Bálcãs bloqueado e com o início das deportações da Grécia para a Turquia, dezenas de milhares de migrantes esperam na Líbia pela travessia para a Itália

  Por Redação, com DW - de Atenas:   O drama europeu dos refugiados não começou com as longas caminhadas através dos Bálcãs. Teve início muito antes, com gangues de traficantes humanos e botes de borracha superlotados, muitos dos quais naufragaram no Mediterrâneo, em algum ponto entre a costa da Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. O triste ápice: na madrugada de 18 par 19 de abril do ano passado, um barco virou a caminho da Itália, matando cerca de 700 pessoas. Apenas 28 se salvaram. A travessia ilegal pelo Mediterrâneo não é apenas muito mais perigosa, mas também muito mais cara do que a rota por Turquia, Grécia e países dos Bálcãs até a Europa Ocidental. Por esse motivo, principalmente sírios e iraquianos recorriam à rota dos Bálcãs. No entanto, devido aos controles de fronteira, os Bálcãs se tornam um beco sem saída para um número cada vez maior de pessoas.
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Refugiados chegam ao porto de Messina, na Itália, após serem resgatados no Mediterrâneo
Desde que a União Europeia (UE) fechou um acordo com Ancara, que prevê basicamente a deportação de refugiados em situação irregular da Grécia para a Turquia, muitos imigrantes têm que procurar alternativas. Não à toa a porta-voz para o sul da Europa da agência da ONU para refugiados (Acnur), Carlotta Sami, falou recentemente de um risco de "nova explosão" da rota da Líbia para a Itália. A Acnur estima que, nos primeiros três meses deste ano, cerca de 16 mil pessoas se aventuraram na travessia, 60% a mais que no mesmo período do ano passado.

Políticos sob pressão

Diante desse novo velho desafio, a classe política está sob pressão. O ministro alemão do Interior, Thomas de Maizière, disse ver o acordo de refugiados com a Turquia como um modelo para países norte-africanos. Segundo ele, isso implica a deportação para os respectivos Estados e, em troca, a aceitação de um "contingente humanitário" na União Europeia. "Este método está correto, e deveríamos aplicá-lo também para a rota central pelo Mediterrâneo, a partir do Norte da África para a Itália", afirmou. "Isso, porém, vai ser muito mais complicado do que com a Turquia." Pelo Facebook, os traficantes de pessoas já anunciaram que, a partir da primeira semana de abril, darão início de verdade aos negócios no Mediterrâneo. Normalmente, a fase de mau tempo no Mediterrâneo Central acaba no mês de abril. Mas a travessia para a Itália, de entre 450 e 600 quilômetros, não é muito mais segura nessa época. – Tantos os botes de borracha quanto os de madeira não foram construídos para fazer um percurso tão longo – explica o capitão de corveta Bastian Fischborn, porta-voz das missões da Marinha das Forças Armadas alemãs (Bundeswehr).

Última esperança

O padre eritreu Mussi Zerai tem que lidar com as consequencias disso. O religioso, que vive na Suíça desde meados de 2004, se tornou algo como a última esperança para refugiados que estão em barcos em perigo. Seu número de telefone circulou entre imigrantes de Eritreia, Somália e Etiópia, e está pregado em paredes de campos de refugiados líbios e em convés de botes de imigrantes. Em entrevista à agência alemã de notícias DW, ele afirmou ter recebido, recentemente, um telefonema feito a partir de um pequeno bote de plástico, no qual se encontravam cerca de 80 pessoas que queriam chegar à costa italiana. – O bote adentrou uma região de fortes ventos. Muitas pessoas estavam pela primeira vez dentro de um barco e não sabiam nadar – relata Zerai. Então entrou cada vez mais água para dentro do bote. Em casos como esse, os próprios eritreus que fugiram de seu país informam as autoridades italianas. Segundo o padre, na maioria das vezes, demora ainda cerca de oito horas até que a guarda costeira chegue ao local. A essa altura, muitos já morreram. Recentemente, o jornal alemão Welt am Sonntag noticiou, com base em informações de diferentes serviços de inteligência, que entre 150 mil e 200 mil pessoas já se encontram em cidades costeiras ao redor de Trípoli, esperando por melhores condições meteorológicas. Entre elas, estão cada vez mais sírios, informou o diário. A chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, alertou sobre a possibilidade de que até 450 mil refugiados, devido à situação de instabilidade política na Líbia, possam tomar a rota pelo Mediterrâneo. O porta-voz da Marinha Bastian Fischborn afirmou que, neste ano, até agora somente seis sírios chegaram à Itália através da rota pelo Mediterrâneo. O militar ressaltou, no entanto: "Não importa onde ocorram obstáculos em qualquer uma das rotas, essas pessoas vão tentar tomar outros caminhos." Para o sacerdote Mussi Zerai, só há uma solução a longo prazo: "A União Europeia precisa criar possibilidades legais de acesso: programa humanitário, vistos, reagrupamento familiar. Este é um primeiro passo para reduzir o número de pessoas que tentam chegar à Europa pelo Mediterrâneo."
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