Com IDH africano, Favela do Mandela vive apartheid social

13/6/2010 16:11,  Redação, com ABr


A história de luta do líder sul-africano Nelson Mandela serviu de inspiração para dar nome a uma comunidade pobre na Zona Norte do Rio. A Favela do Mandela – localizada no Complexo de Manguinhos, numa área conhecida como Faixa de Gaza – apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) próximo ao de países da África.

Enquanto bairros cariocas como a Gávea, na zona sul da cidade, apresentam um IDH de 0,970 – compatível com o da Noruega, primeira colocada no ranking de 2009, com 0,971 – as comunidades de Manguinhos registram um IDH de 0,726, o que as coloca abaixo de países como Gabão (0,755) e a Argélia (0,754). Na Gávea a expectativa de vida chega a 80 anos, enquanto para os moradores da favela do Mandela fica em torno de 66 anos.

Na entrada da favela, decorada com bandeiras do Brasil e fitas verde-amarelas, jovens de aproximadamente 18 anos de idade cuidam de uma ‘banquinha” de cocaína, protegidos por uma espingarda. As ruas são de difícil acesso, pois os traficantes bloqueiam a pista com blocos de concreto, a fim de deter ataques de grupos rivais ou da polícia.

A favela do Mandela cresceu em torno de um conjunto habitacional batizado com o nome do líder sul-africano, em 1990, e se divide em Mandela 1, Mandela 2 e Mandela de Pedra – esta mais pobre e resultante da ocupação de terrenos públicos de forma desordenada.

Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do complexo de Manguinhos era de 31 mil habitantes em 2000. Mas de lá para cá o número de moradores aumentou muito, o que é constatado pelo adensamento horizontal e vertical das moradias nas favelas da região. As casas se apóiam umas nas outras, construídas em precárias condições. Algumas em madeira e quase todas com tijolos aparentes.

A infraestrutura oficial é quase inexistente e benefícios como água e luz são frutos de iniciativas próprias dos moradores. O esgoto corre na frente das portas, em becos estreitos, onde as crianças brincam de pés descalços ou, no máximo, com um chinelo de dedo. A incidência de micoses é tão frequente que as mães têm que levar os filhos todos os meses ao posto de saúde por causa da recontaminação.

– A gente queria sair daqui, dar uma coisa melhor para os nossos filhos. Quando chove a água entra dentro de casa e tem muito rato também. Por causa do esgoto, tem que levar as crianças sempre no posto. A perna fica toda marcada, é muito chato – reclama a dona de casa Verônica Farias, enquanto se lavava em uma bacia, ao lado da sarjeta que passe em frente de casa.

A falta de higiene no local é a reclamação mais constante das mães, que não conseguem impedir os filhos de entrarem em contato com o esgoto que cobre as vielas.

– É muito ruim, porque as crianças brincam na vala por mais que você fale para elas não mexerem ali. O meu filho só vive doente, com problema de vermes e de intestino, porque ele cai direto no esgoto – conta a dona de casa Susana Cristina Barreto.

Para ela, o cenário da favela lembra o da África do Sul, terra do líder Mandela.

– Só que lá a gente vê a situação e se comove. Mas a mesma coisa acontece aqui. O povo brasileiro deveria olhar mais para as nossas comunidades carentes, para aqueles que ainda estão no esgoto e na lama. Porque a nossa vida aqui é difícil, não é diferente deles [sul-africanos]. Também somos um povo sacrificado – disse.

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