Carta de Esperança e Compromisso das Pastorais do Campo

7/2/2012 15:16,  Por Adital

O Centro de Formação Vicente Cañas, do Conselho IndigenistaMissionário, CIMI, em Luziânia, Goiás, acolheu nos dia de 4 a 5 de fevereiro de2012, quarenta representantes das Pastorais Sociais do Campo. Sentimos bater ànossa porta a história atual das populações do campo com suas preocupações eindignações cada vez mais se avolumando no atual momento. O avanço dos projetoseconômicos, nacionais e transnacionais, respaldados e, muitas vezes,patrocinados pelo Estado brasileiro, estão ameaçando os espaços de reproduçãofísica e cultural dos povos e comunidades campesinas no Brasil.

Nosso encontro foi vivido como uma urgência que finalmenterealizamos, para nos conhecer mais, nos reanimar e dobrar o empenho naconstrução de estratégias conjuntas de enfrentamento aos desafios existentes.Os gritos que nos vêm, das florestas, das terras e territórios dos povos e dascomunidades tradicionais, sobretudo por conta dos impactos e das contínuasameaças que sofrem, exigiram de nós este primeiro momento de articulação quedesejamos continuar e reforçar.

Recebemos a visita, e se mantiveram o tempo todo conosco, nossosancestrais, os mártires e todos os que tombaram nas lutas antigas e recentes,em defesa da Vida. Foi emocionante e de grande responsabilidade para nós,sentir a presença deles e de suas grandes causas. Nós nos recusamos esquecê-las,pois são causas em prol de uma igreja e de uma sociedade nova e diferente.Oscar Romero, Josimo, Dorothy, Nísio Guarani-Kaiowá, Flaviano, quilombola doCharco MA… nos convidaram a olhar com fé para as novas sementes deresistência e de rebeldia que teimosamente são plantadas em todo canto da AbyaYala, a Pátria Grande, pelos povos indígenas, quilombolas, camponeses ecamponesas de inúmeros territórios e culturas.

De fato, além destes, acompanhados por Cristo ressuscitado, entreoutros entraram na aldeia que nos hospedava:

- os Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul, expropriados de seusterritórios e de sua cidadania, massacrados, proibidos, alijados da convivêncianacional;
- os quilombolas do Moquibom – MA, cerca de 80quilombos que defendem e reivindicam os

seus territórios, cercados pela violência do latifúndio e doEstado;
- os quilombos do Recôncavo Baiano do Rio dosMacacos e do São Francisco do Paraguaçu….
- os povos indígenas do Xingú impactados peloabsurdo e autoritário projeto de Belo Monte;
- os jovens, a quem se fecham os horizontes de umavida digna e prazerosa no campo;
- os Guarani e sem terra do Paraguai que lutampara retomar as terras, ocupadas ilegitimamente por latifundiários brasileiros;
- Os indígenas da Bolívia que não aceitam eimpedem no TIPNIS (Território Indígena Parque NacionalIsidoro Sécure) a construção de uma rodovia;
- Os campesinos de Honduras que, em Bajo Aguán,ainda aguardam uma solução para não perder a terra…

A narrativa viva que apareceu em nossos diálogos e em nossasreflexões projetaram, em sua crueza, imagens que, há muito tempo, estamos vendoe que a grande mídia quase não revela mais: invasões, traições da palavra,explorações, violências permanentes contra nossos irmãos quilombolas, ribeirinhos,pescadores, quebradeiras de coco, camponeses, jovens e indígenas, migrantesassalariados e escravizados …

Desta terra depredada e de seus filhos resistentes, vemosrenovar-se a cada dia, reações e sinais de esperança. Para quem quer ver, sãoos sinais, do Reino, da Terra sem Males, do Sumak Kawsay (o Bem Viver Quechua)que fermentam e aquecem nossas lutas, nossas comunidades, nossas vidas.

Esta é a hora, agora mais do que nunca, de tecer, com os fios dahistória, uma só rede de solidariedade, resistência, teimosia e reação. Com aforça dos pequenos, do campo e das cidades, nas ruas e nas praças, de noite ede dia. O sangue derramado pelos nossos irmãos e irmãs de luta, não foi e nemserá em vão. Este é para nós o Evangelho do Ressuscitado e esta é a mística quenos faz acreditar na vitória de nossa pequena “pedra” (cfr. Daniel 2, 26-35)chamada esperança, que nasce e renasce da terra e que lançaremos,cotidianamente, contra o gigante dos pés de barro e em favor dos nossos irmãos.Esta pedra de nossa esperança é eficaz quando, com nossos compromissosunitários, reconhecemos e aceitamos a riqueza e a diversidade que o espírito deJavé faz surgir entre os pobres. Isso, da parte de nossas pastoraismissionárias, implica:

- aceitar sermos parteiros e parteiras de um mundo novo através deformas novas de vivificar nossas igrejas e nossas comunidades;
- exigir que o Estado deixe de iludir, reprimir eviolentar, com seus aparatos, os povos que não aceitam entrar na estruturadesumana do capitalismo e dos seus latifúndios;
- impedir que nossas terras e territórios estejamcada vez mais monopolizados pela mineração selvagem e os monocultivos;
- recusar, decididamente, a canga, semprerenovada, de uma política que quer reduzir os territórios de vida a novosfeudos a serviço do lucro e transformando-os em novos currais eleitorais paralegitimar o poder concentrado;
- promover a participação e o protagonismo dequem, uma vez despertado para o valor da cidadania, ameaça ser novamentetolhido por uma democracia formal que mascara um autoritarismo e umadependência deprimente de marco neocolonial.

Sobre nosso Brasil indígena, negro, camponês, sobre os jovensdesta hora tão ameaçadora e sobre todos os que se solidarizam com outro modelode Brasil, pedimos a benção do Deus de tantos nomes que Jesus veio nos mostrarcom sua missão que é também a nossa.

PARTICIPANTES DO ENCONTRO DAS PASTORAIS BRASILEIRAS DO CAMPO

BRASILIA, 5 DE FEVEREIRO 2012

CIMI – Conselho Indigenista Brasileiro
CPT – Comissão Pastoral da Terra,
PJR – Pastoral da Juventude Rural
SPM – Serviço Pastoral dos Migrantes
CPP – Conselho Pastoral dos Pescadores
Caritas Brasileira


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