Blatter “sabe que as reformas na FIFA são necessárias”

Sylvia Schenk, da Transparência Internacional (TI), é autora de um relatório sobre reformas na Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa), fala à swissinfo.ch sobre a vontade do órgão de mudar.

A ONG Transparência Internacional, que segundo seus estatutos é uma organização da sociedade civil global liderando a luta contra a corrupção e com sede em Berlim, publicou na terça-feira (16/08) um relatório que reclama reformas na Fifa como a realização de investigações independentes sobre alegações passadas de corrupção e a criação de um grupo de partes interessadas para supervisionar inquéritos e mudanças.

A ONG apela à Fifa para rever suas formas de investigar as suspeitas de corrupção e publicar relatórios financeiros mais detalhistas, incluindo bonificações para executivos e salários dos funcionários. A Fifa deve também proteger denunciantes, impor um limite de dois mandatos para cargos nos conselhos e tornar mais aberto os processos de decisão ao invés de continuar a ser “opaco”.
 
O relatório de oitenta páginas com sugestões de reforma foi finalizado pela IT após reuniões e negociações com o presidente da Fifa, o suíço Sepp Blatter, e outros representantes em Zurique.

swissinfo.ch: A senhora acredita que a Fifa e Sepp Blatter, manifesta disposição ou a cultura para mudanças? 

Sylvia Schenk: Tenho a impressão que Blatter sabe que eles têm de fazer algo. Agora vamos ver no futuro até que ponto eles irão. É muito importante ter todas as propostas sobre a mesa em público para quais serão aceitas pela Fifa. Será muito difícil para eles de dizer no futuro “que estamos implementando os pontos de 1 a 3, mas não de 4 a 10 das nossas propostas”. Acho possível a aceitação de um grupo independente, mas isso vamos ver nos próximos meses.
 
É difícil de falar sobre a Fifa no seu conjunto, pois existem diferentes grupos que compõem essa organização. Eu acredito que os funcionários têm uma grande abertura para reformas e uma grande mudança já foi feita no que diz respeito à contabilidade e aos relatórios. Mas o principal problema está nos níveis mais elevados de poder de decisão com as organizações da Fifa e seus representantes.

swissinfo.ch: A Fifa saudou a publicação do relatório, mas acrescentou ter tolerância “zero” em relação a qualquer forma de corrupção no futebol e já ter adotado uma série das melhores práticas e recomendações feitas, além de dizer que outras serão brevemente implementadas. Isso não leva a crer que eles estão muitos dispostos a aceitar as ideias que vocês apresentaram… 

S.S.: Eu não tenho essa impressão. Eu acho que é uma tentativa de mostrar que eles compreenderam o relatório e estão trabalhando nos pontos. Sei das nossas discussões que eles estão trabalhando sobre propostas relativas aos comitês de ética, mas elas não podem ser já publicadas, pois precisam ainda da aprovação do comitê executivo.

swissinfo.ch: A senhora apelou à Fifa para organizar investigações independentes sobre denúncias passadas de corrupção para ajudar a superar a crise de confiança. Quais seriam essas denúncias? 

S.S.: Várias acusações voltam sempre a surgir. Temos os escândalos atuais sobre o processo de escolha das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Também há uma relativa às eleições durante o congresso neste ano, que estão sendo investigadas pelo comitê de ética. Porém outras pessoas dizem que há mais casos para investigar.
 
Existem outros pontos como, por exemplo, relacionados a membros do comitê executivo da Fifa como Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, e seu envolvimento pessoal no comitê de organização da Copa do Mundo e empresas trabalhando nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014.
 
Também há o caso ISMM-ISL (a falência da empresa de marketing desportivo e parceira da FIFA, decretada por um tribunal suíço). Nós recomendamos que a Fifa declare esse assunto de interesse público e ajude os tribunais suíços a divulgar as informações.

swissinfo.ch: Vocês estão enviando o relatório também às federações nacionais de futebol? A senhora acredita seriamente que eles podem ter alguma forma de influência externa na Fifa? 

S.S.: Durante o congresso de junho a maior parte das federações nacionais não queria controlar realmente o comitê executivo. Mas se elas quisessem, isso seria possível.
 
Nós não estamos enviando o relatório para todas as 208 federações. Nós solicitamos as cem representações da Transparência Internacional de escrever para suas federações nacionais de futebol e pedir que discutam as questões em debate e exerçam pressão sobre a Fifa.
 
A coisa mais importante para realmente impulsionar a Fifa é ter pressão dos dois lados: externa através da sociedade, patrocinadores e a mídia, e interna. Existem organizações de futebol que querem mudanças e federações que votaram contra Blatter. Também temos clubes profissionais que têm posições críticas, como foi demonstrado pelos comentários recentes do presidente da Associação Europeia de Clubes, Karl-Heinz Rummenigge.

Sylvia Schenk (zVg)

swissinfo.ch: O Departamento Federal de Esportes (órgão do governo suíço) também está investigando se mudanças legais poderia levar organizações esportivas a ficar em linha às corporações sob abrigo da legislação anticorrupção da Suíça. A senhora acredita que as autoridades helvéticas poderiam ter uma influência sobre a Fifa? 

S.S.: Seguramente. Tudo o que acontece na Suíça – e eu espero que as discussões continuem – não fazem apenas pressão direta sobre a Fifa, mas indiretamente dobram ou triplicam a pressão sobre outras federações esportivas na Suíça.
 
As outras federações esportivas estão preocupadas com as discussões provocadas pela crise na Fifa na Suíça. Tenho a impressão que algumas delas não querem perder seus privilégios.
 
Existe alguma pressão sobre a Fifa, mas é importante que continue na Suíça a discussão sobre as mudanças legais para fazer que organizações esportivas como a Fifa mais capazes de prestar contas ao mundo exterior.
 
Talvez isso não ajude em todos os casos – eu duvido que suborno em campanhas eleitores se torne um crime sob a Lei de suborno privado – mas simplesmente mudar a lei para incluir organizações esportivas iria enviar um grande sinal de que esporta não está fora da lei, como considerado até então.

Simon Bradley, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele