Apoio fiscal à celulose “zerou” a produção de alimentos

21/6/2011 0:28,  Por Radio Agência ANP

(6’02” / 1.38 Mb) – Nascida de uma fusão entre a Aracruz Celulose e a Votorantim Celulose e Papel, a Fibria se transformou em uma gigante do ramo e hoje possui uma plantação de eucalipto que ocupa, somente na microrregião de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, mais de 300 mil hectares de terras. A transação que deu origem à Fibria contou com um financiamento de quase R$ 2,5 bilhões do Banco nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Com o projeto de expansão da empresa, e a instalação de outras companhias que ocorrerá a partir de 2014, metade da celulose produzida no Brasil sairá da região. O geógrafo Mieceslau Kudlavicz analisou os impactos dessa atividade em sua dissertação de mestrado (Dinâmica Agrária e Territorialização do Complexo Celulose/Papel na Microrregião de Três Lagoas), apresentada na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Entre as surpreendentes constatações, Kudlavicz observou que as lavouras de feijão, milho e arroz praticamente desapareceram. Em entrevista à Radioagência NP, o geógrafo – que é agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – explica como o monocultivo do eucalipto desarticula as comunidades rurais, contanto sempre com a generosidade dos governantes que concedem isenções fiscais milionárias.

Radioagência NP: Mieceslau, quais os principais impactos da produção de celulose em Três Lagoas?

Mieceslau Kudlavicz: Há uma grande velocidade na expansão dos monocultivos. Com isso, está ocorrendo um grande desemprego nas fazendas. Por outro lado, temos a desarticulação das comunidades rurais. O comércio local está sofrendo um impacto muito grande porque quem aquecia a economia eram principalmente os empregados, os peões das fazendas. As escolas estão diminuindo o número de alunos em sala de aula. Além disso, está ocorrendo um inchaço da cidade de Sete Lagoas, porque boa parte dessas famílias está vindo para a periferia da cidade.

Radioagência NP: De que maneira essa atividade interfere na agricultura?

MK: De 2004 até 2011, tivemos uma redução de 30% da pecuária. A produção de leite ficou reduzida em praticamente 50%, segundo dados do IBGE. Tivemos uma redução praticamente a zero de toda e qualquer lavoura temporária, como feijão, milho, arroz e outros produtos. Então, há uma grande reorganização do uso e da função do espaço agrário aqui dessa região.

Radioagência NP: Os prejuízos ambientais já foram avaliados?

MK: Além do eucalipto, não tem nenhuma outra vegetação. Assim, reduz também o número de outros seres vivos que tinham seu habitat no cerrado. Há o uso excessivo de agrotóxicos, que provocou a contaminação do solo e pode também contaminar o lençol freático. Tem uma área que há mais de 40 anos é cultivada com eucaliptos e há denúncias dos camponeses de que nascentes que existiam nessa região não existem mais e as lagoas secaram. Haverá necessidade de pesquisas que monitorem esse processo de expansão, com relação inclusive a novas doenças que podem ocorrer porque os insetos que tinham seus hospedeiros no cerrado, nas matas, hoje não têm. Eles foram expulsos pelo eucalipto.

Radioagência NP: As empresas recebem incentivos públicos?

MK: Elas recebem um grande incentivo, que é a isenção quase a zero dos impostos. Além da isenção municipal, que é a do ISS [Imposto Sobre Serviços], de 10 a 15 anos. Na isenção de impostos estaduais, como o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços], há uma isenção de quase 90%, por 15 anos.

Radioagência NP: Com essas isenções, qual valor deixou de ser arrecado?

MK: Só na construção da Votorantim, atual Fibria, a isenção do ISS custou R$ 50 milhões, no mínimo, que deixaram de entrar nos cofres públicos. E aí, basta fazer o cálculo: se a Fibria diz que hoje está produzindo mais de 1 milhão de toneladas de celulose, e o produto custa em torno de US$ 900 a tonelada, quer dizer que ela tem um faturamento de mais de US$ 1 bilhão por ano. Se considerarmos que em cima desse valor deveria incidir 17% de ICMS , e se ela tem redução de 90%, há um valor muito grande que deixa de entrar nos cofres públicos.

Radioagência NP: Por que os governantes concedem incentivos, já que o eucalipto provoca tantos impactos negativos, como você relatou?

MK: É a tal da guerra fiscal. Os estados querem atrair indústrias para dizer que estão gerando emprego e aí não importa o que significa isso para a população. O que importa é que se dê visibilidade à atuação do governante, que está trazendo emprego, desenvolvimento, progresso. E que isso, no futuro, lhe renda votos.

De São Paulo, da Radioagência NP, Jorge Américo.

16/06/11


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