Antigos (e velhos) companheiros

24/6/2011 23:45,  Por Adital

Ascasas são modestas. São moradias de pedreiros, serventes de obras, faxineiras,funcionários públicos, donas de casa, em geral construídas pelos própriosmoradores com ajuda da família, dos vizinhos, em mutirão. Num raio de 50metros, na Vila São Pedro, Parada 13 da Lomba do Pinheiro, conjunto de vilaspopulares na periferia de Porto Alegre e Viamão, moram o pedreiro José CarlosPintado, mais conhecido como seu Cantilho, e dona Maria, o pedreiro Zé da Lombae dona Alba, a funcionária pública da saúde aposentada dona América e seufalecido marido Sabino, o pedreiro Ari (falecido) e a dona Catarina, o pedreiroLindomar e a dona Rosa. Em ruas paralelas, o funcionário público Renato ‘Camoti’e a Edenir, a Maria Eroni e o policial militar falecido João, e mais dezenas delideranças, na antiga Vila Santa Catarina, hoje Bonsucesso, na Vila SantaHelena, na Vila Panorama, no Jardim Viçosa. São todos e todas liderançascomunitárias, agentes de pastoral, dirigentes sindicais, militantespartidários.

Agente fica velho e o passado, as memórias começam a rondar. Mas sempre pensandono futuro. Dia 11 de junho, no salão comunitário da igreja São Pedro, reuniu-separte destes lutadores, e alguns novos ou mais recentes, para homenagear seuCantilho, 80 anos, um dos mais antigos e velhos. Hoje, ele anda devagar,amparado num andador, mas durante décadas percorria ruas, becos, vielas parachamar para reuniões, mobilizar e conscientizar o povo.

Emsua casa, por muito tempo funcionou o Núcleo do Partido dos Trabalhadores daLomba do Pinheiro, fundado em 1980. Nos fundos, num espaço apertado, reuniam-selideranças e filiados, que nunca tinham se preocupado com política partidáriana vida, para organizar aquele partido novo que estava surgindo, discutirpolítica, preparar-se para as eleições, serem dirigentes políticos.

Seu Cantilho foi/é um dosprotagonistas desta história. Dia 8 de abril de 2011 o Conselho Popular daLomba do Pinheiro convocou a população para uma paralisação geral, fechando aRua João de Oliveira Remião, principal porta de entrada para a região. O motivoera o rápido crescimento populacional da bairro, sem os correspondentesserviços de qualidade, como o transporte coletivo, e a falta de vagas escolaresno ensino médio e fundamental. A mobilização foi um sucesso e chamou a atençãodas autoridades.

DeBrasília, solidário, escrevi uma mensagem a ser publicada no blog (www.cplombadopinheiro.blogspot.com) que fazia aconvocação, coordenada pelo líder comunitário Francisco Geovane:

“Todo apoio eaplausos pela mobilização e paralisação do dia 8, urgentes e necessárias”.

Na segunda metadedos anos 70, quando comecei a morar e atuar na Lomba, ainda frei franciscano,havia ‘fartura’ de tudo: água, posto de saúde, asfalto, ônibus, saneamento,etc. E olha que nesta época o Pinheiro já era razoavelmente bem habitado ecrescia muito. Foi uma briga e tanto levar o ônibus para dentro da vila SantaHelena. Na Rua São Pedro, parada 13 (lá se conhece tudo pelo número das paradasde ônibus), onde eu morava, a água era de poço e muitas vezes o banho era decaneca, como depois, mais ainda, na vila Santa Helena, onde passei a morar. Sóhavia, e pequeno, o posto da de saúde da Vila Panorama. E tantos outros exemplos.

Mas a ida emcaravanas no Gabinete do Prefeito, a criação do jornal O LOMBA (rodado emmimeógrafo), a União de Moradores da Lomba e tantas outras iniciativas emobilizações fizeram com que se conseguisse melhorar as coisas aos poucos.

No início dos 80,além da continuidade das lutas locais, também teve lutas maiores: a organizaçãoda Oposição Sindical da Construção Civil, a partir da grande greve dostrabalhadores da construção civil no final dos anos 70, na esteira das grevesdo ABC com Lula e dos bancários com Olívio Dutra, as várias greves gerais,tentando parar os ônibus na Oliveira Remião ou na garagem da Parada doze, eassim por diante.

Foram por aí aorganização e as conquistas, sempre a partir de lutas concretas, a partir dabase e de massa. A Lomba do Pinheiro e sua história de organização e capacidadede mobilização foram construídas assim ao longo do tempo. Parabéns, toda forçae ‘sempre em frente que atrás vem gente’”.

JoséCarlos Pintado, para todos o Seu Cantilho, vem sendo um dos esteios desta lutapermanente, que depois elegeu vereadores, elegeu-me deputado estadualconstituinte. A Lomba tem sido uma das maiores forças na organização doOrçamento Participativo desde 1989, no primeiro governo Olívio Dutra naprefeitura de Porto Alegre e em todos os processos de participação popularinstaurados a partir de baixo.

Nahomenagem destes dias, um dos fatos mais lembrados por todos foi um grupo deestudos que eu e a Marta organizamos naquele tempo com as principaislideranças, onde se falava, discutia e estudava a conjuntura, as formas deorganização do povo, a estrutura econômica e social, as propostas de novasociedade. Todos dizem que este grupo de estudos foi fundamental no seuconhecimento de mundo e no fato de, dezenas de anos depois, continuarem firmesna luta e no compromisso do povo.

Lembrei-meda Rede de Educação Cidadã (RECID), que começou no governo Lula com Frei Betto,ligada ao Fome Zero, e que continua hoje no governo da presidenta Dilma. ARECID tem como referência principal a pedagogia freireana, de Paulo Freire:partir da realidade, o diálogo e a construção coletiva. Naqueles anosdistantes, continuando hoje, nada diferente foi feito. As bases políticas eteóricas foram/são as mesmas. A realidade local é o ponto de partida e de referênciainicial para qualquer ação comunitária e organizativa. O diálogo é permanente,na troca de idéias e experiências. E o construir coletivo e solidário cimenta oplanejamento, a ação e os sonhos. O estudo regular é essencial, no caso daRECID através das Cirandas de Formação.

Aluta continua. Os antigos (e velhos) companheiros são de fé. Por isso,construíram e estão construindo um Brasil novo, diferente, numa América Latinaem mudança. Para o seu Cantilho, uma longa vida e sempre na boa luta, como diriao companheiro Olívio Dutra.

Emdezessete de junho de dois mil e onze.

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