A lição de Nara: não é preciso gritar para fazer barulho

18/1/2012 23:36,  Por Vermelho

Elis Regina desafiava as notas altas com talento e foi uma estrela de máxima grandeza. Nara teve uma carreira ilimitada apesar da voz limitada por graves e baixos. Embora nunca tenham sido amigas – e os motivos para o fato são discutíveis – quis a história, essa tirana, que as duas compartilhassem uma data em comum, 19 de janeiro, aniversário de Nara, morte de Elis em 1982. Nara faria 70 nesta quinta!

Por Christiane Marcondes
“Um dia ou a gente se enquadra ou pega estrada”, preconizou o escritor e beatnik Jack Kerouac, referindo-se a uma decisão que vem com a idade. Elis Regina e Nara Leão pegaram estrada aos 11 e jamais se enquadraram. Nara, porque ganhou um violão que enfiou embaixo do braço e saiu por aí. Elis porque na mesma idade começou a cantar em programa de rádio para crianças, O Clubi do Guri. A primeira nasceu no Espírito Santo, em 1942, cresceu em Copacabana quartel-general da bossa nova, a segunda nasceu em 1945 no Rio Grande do Sul, cresceu no Brasil da MPB.

Nara e a bossa nova se confundem. Ela foi considerada a “musa” do movimento e arregimentou os “narólogos”. Ou os apaixonados por seus joelhos que, comportadamente, ficavam à mostra enquanto a moça tocava violão no banquinho.

No programa Ensaio, da TV Cultura, Nara recorda que Insensatez foi uma das primeiras músicas populares no grupo de bossa nova, ainda amador na época. Elis Regina também gravou a música de Tom Jobim, mais de dez anos depois.

Insensatez – Nara Leão

How insensitive – Elis Regina – em um show na Itália em 1972

Tom Jobim

Corcovado foi outra bossa do Tom que conquistou uma e outra, a suave e a irreverente. O maestro foi parceirão das duas em tempos diferentes, de Nara logo cedo, quando a bossa nova ainda dizia a que vinha e ganhava um contorno conceitual com o “desafinado” de João Gilberto. Foi admiração mútua, tanto que das 24 músicas selecionadas para um disco de Nara em 1971, 19 eram do Tom, uma delas, Corcovado.

Em 1974, Elis Regina convidou o maestro para gravar um LP só de duetos, entrou para a história. Corcovado estava na lista das músicas, aliás, já estava no repertório de Elis desde 1972, quando foi muito bem apresentada em um show na Itália.

Nara Leão – Corcovado

No vídeo a seguir, antes do Corcovado se descortinar na música, é a “pimentinha” que se abre em monólogo, confessando-se “mais desvairada” do que nunca.

A banda passou

Na década dos grandes festivais de música, 1960, as duas e todos os grandes nomes da música brasileira se cruzavam nos bastidores da TV Record, palco do evento. Num desses esbarrões, Elis Regina conheceu Chico Buarque, mas acabou desistindo de gravá-lo devido à impaciência com a timidez do compositor, confessou.

Já Nara e Chico entraram em sintonia justamente por causa da timidez, bom, a história dos dois é conhecida e longa, começa quando a musa da bossa nova o lançou. Em 1966, apresentaram A Banda, de Chico, na 2a edição do festival da TV Record.

Na verdade, Nara iria cantar sozinha, mas quando Manoel Carlos, o dramaturgo e amigo da dupla, ouviu o arranjo instrumental, deu a dica para Chico cantar. A voz de Nara seria abafada pelos instrumentos. Deu certo! Chico começa, Nara arrebenta.

A voz maior e a letra mais linda

Em 1968, na 3ª edição do festival, Elis ganhou prêmio de melhor intérprete, e subiu ao palco pouco antes de Nara Leão, que ganhou pela melhor letra, de Sidney Miller.

Bôscoli e o barquinho

Ronaldo Bôscoli, o primeiro amor de Nara, ela tinha cerca de 16 anos, dedicou-lhe a canção Lobo bobo e Se é tarde me perdoa, quase se casaram, não fosse a impetuosidade de Maysa, que embalouo moço  pra presente e anunciou à mídia um casamento que nunca houve.

Nara e Bôscoli estavam comprometidos quando os jornais deram a manchete. A cantora não se fez de rogada, ignorou explicações do noivo e foi à luta. De Bôscoli, ficou para o grande público fã de Nara, a gravação de O barquinho, reprodução poética de uma cena real de quando os dois namoravam e quase naufragaram, com Menescal no mesmo barco, o autor da melodia.

Elis, outra coincidência entre as duas, também amou Bôscoli — muito a contragosto, porque tinha uma antipatia pessoal pelo músico antes de conhecê-lo — e com ele se casou em 1967, tiveram um filho, João Marcelo. Em 1971, apresentou sua versã de O barquinho na Itália. O casamento naufragava como na cena em que a canção foi originariamente concebida.

O barquinho – Elis – 1972 – Itália

Anos de chumbo

Já em 1964, Nara Leão já abandonara a moça, o sorriso e a flor. Protagonizou o show “Opinião”, de Oduvaldo Viana Filho com direção de Augusto Boal. No repertório, a música do morro “teve vez”, com Zé Keti e João do Vale assinando as composições. Foi considerado subversivo.

Opinião – Elis, de Zé Ketti